Tecnologia aberta e o projeto Santos às Cegas

De um lado temos um professor ciente da não neutralidade da tecnociência capitalista e ansioso por colocar em prática os conhecimentos e os ideias da tecnologia aberta. Do outro uma cidade que necessita de maior inclusão, interação e questionamentos sobre sua história, na maioria das vezes contada a partir da ótica dos vencedores. O que saiu disso foi o Projeto Santos às Cegas, descrito aqui por seu próprio idealizador Renato Frosch *

A pandemia do coronavírus acelerou alguns processos de colaboração digital internacional, destacadamente em nosso país. Pode parecer algo distante e inoportuno comentar este aspecto em momento mundial tão calamitoso, porém, de maneira esperançosa e em alguma medida revolucionária, novas redes solidárias foram formadas, fortalecidas e geridas, por exemplo, com o desenvolvimento, produção e disponibilização dos protetores faciais, chamados popularmente de face shields. Este dispositivo foi (e é) largamente utilizado por equipes de profissionais de saúde como uma barreira mecânica de proteção à dispersão de vírus. Nesta produção, intencionalmente estruturada em pequenos grupos de trabalho, pessoas descobriram outras pessoas, muitas vezes vizinhos de bairros ou de cidades próximas a partir de suas habilidades, vontades e atuações diversas utilizando-se de tecnologia aberta e uma dose de entusiasmo em buscar contribuir de algum modo com a situação emergencial do início da pandemia.

Quando o vírus chegou à Europa, em meados do início do ano de 2019, a rede maker mundial já se mobilizava trocando e intercambiando digitalmente os arquivos que mais se adequavam a critérios de produção ágil, consumo de materiais eficazes e adequação às legislações sanitárias de cada país. Portanto, não é distante dizer que a tecnologia aberta, por meio de recursos do compartilhamento digital, fez com que essas face shields fossem executadas de maneira colaborativa antes mesmo da chegada do vírus ao Brasil, em março de 2020.

Vale destacar aqui dois pontos do contexto de tecnologia aberta abordados neste texto: o compartilhamento e o fazer digital. O compartilhamento (em inglês, share) é o ato de trocar arquivos em perspectiva do open source (ou o código aberto) de projetos de algum objeto ou produto. E o fazer digital é o ato de produção em pequena e média escala utilizando-se de máquinas que tiveram prazos de patentes findados e assim estimularam, por via menos burocratizada, a aceleração da fabricação digital chegar ao acesso mais popular, por exemplo o uso de impressoras 3d.

Santos às Cegas

Neste contexto de experiência e reconhecimento prático da tecnologia aberta, em novembro de 2020, surge o Projeto “Santos às Cegas”. Motivado por edital da Secretaria da Cultura da Prefeitura de Santos/SP, relacionado ao Prêmio Alcides Mesquita, o projeto tem seu início operacional nos meses de janeiro e fevereiro de 2021.

O projeto tem como objetivo dar acesso às pessoas com e sem deficiência a trajetos ao longo da ciclovia de Santos/SP, com paradas pedagogicamente mediadas a monumentos, prédios de interesse histórico e outros espaços urbanos, como praças e outros contextos da cidade.

A tecnologia aberta, no caso aquelas utilizadas no projeto, se traduz por meio de ações da cultura maker que é entendida pelas ações do “faça você mesmo”. Do inglês, do it yourself (DiY), o que entendemos hoje como cultura maker nasce de modo mais estruturado em 2001, com o estadunidense Neil Gershenfeld, quando diretor do Center of Bits and Atoms – CBA, do MIT. Motivado pela necessidade de resolver problemas de ordem tecnológica cada vez mais multidisciplinares, encarando-os como um processo e de modo mais rápido, criou uma disciplina chamada “How to make (almost) everything”, algo traduzido livremente como, “Como fazer (quase) todas as coisas”.

Para que o projeto pudesse ocorrer em Santos a partir destes princípios da tecnologia aberta e de modo integrado e democrático foram desenvolvidas réplicas em modelos digitais impressos em 3d de monumentos e também desenvolvida e adaptada uma bicicleta dupla em modelo triciclo. O triciclo acolhe, por exemplo, as pessoas com deficiência visual que podem fazer parte dos percursos e também pessoas que não possuem habilidade em andar de bicicleta.

Cabe uma abordagem que o projeto implantado na cidade de Santos tem a possibilidade de ser expandido para outras cidades, devido à sua facilidade de operação a partir de metodologia desenvolvida.

Na metodologia citada, um ponto que se destaca e que passa pela tecnologia aberta é a produção dos monumentos do trajeto, em formato de miniaturas com uso de recursos da impressão 3d. Para dimensionamento das paradas foram, escolhidos de modo intencional monumentos que além de representatividade histórica e urbana provocassem reflexões críticas, da própria implantação daquele patrimônio e especificidades dos monumentos.

Aqui cabe um aprofundamento conceitual de que há movimentos mundiais, bastante evidentes na Europa e em países latino-americanos como Argentina (que em 2013 substituiu uma escultura de Cristóvão Colombo por liderança indígena), Chile e Colômbia, que colocam em pauta a retirada ou substituição de monumentos que fazem referência a personagens escravocratas, racistas e outros.

Vale entender, também, que os monumentos são o ponto de partida para suscitar as discussões relacionadas à memória e, por outro lado, a simples retirada de uma escultura como vem ocorrendo em outros países, parece não resolver por completo as discussões relativas a determinadas representatividades e contextos. É neste âmbito, da ação afirmativa de reconhecimento das memórias relacionadas aos monumentos, suas interpretações e olhar crítico de celebrações ou desvios delas que o projeto se posiciona.

Foram produzidas aproximadamente 20 réplicas com o uso de fabricação digital e o trajeto tem paradas nestes monumentos. Alguns locais não foram produzidas réplicas mas também oferecem paradas pedagógicas que contribuem para discussão e reflexão a respeito das aprendizagens que determinadas estátuas podem ajudar a entender ou desconfiar de definições muitas vezes estereotipadas a certos contextos.

Monumentos, tecnologia aberta e acessibilidade

Alguns exemplos dos monumentos que o projeto “Santos às cegas” oferece como paradas para reconhecimento tátil das réplicas e dos próprios monumentos são a Escultura dos 100 anos da Imigração Japonesa; Lydia Federici / Maria José Resende; e o de 500 anos do “descobrimento”, ou seja de cinco séculos da invasão européia ao território que viria a ser chamado Brasil.

Além do apoio dos requisitos da tecnologia aberta para produção das réplicas para acesso inclusivo, como citados  anteriormente o fazer e o compartilhamento digital, há muitas tarefas artesanais realizadas para garantia de contrastes visuais e táteis, como o uso de pinturas e texturas diferentes que apoiam o uso destas réplicas por pessoas nas mais variadas habilidades sensoriais, como a visão ou o conforto tátil.

O monumento dos 100 anos da imigração japonesa, da artista Tomie Ohtake, homenageia a chegada do navio Kasato Maru, em 1908, ao Porto de Santos. O Kasato Maru foi originalmente um navio russo chamado Kazan que foi utilizado como navio-hospital durante a Guerra Russo-Japonesa. Foi adaptado para ser um navio de passageiros e transportou os soldados que tinham combatido na Manchúria de volta para o Japão.

Em 1908, o navio trouxe o primeiro grupo de imigrantes japoneses para o Brasil. A viagem começou no porto de Kobe e terminou 52 dias depois, no Porto de Santos em 18 de junho de 1908. Vieram nesta viagem de imigração 165 famílias que foram trabalhar, em grande parte, nos cafezais do oeste paulista.

Em 1907 alguns imigrantes japoneses chegaram ao Brasil, período de aproximadamente 7 meses antes da chegada do Kasato Maru, e há registros que chegaram a fundar uma colônia agrícola na fazenda Santo Antônio, no atual município de Conceição de Macabu (então distrito de Macaé), no estado do Rio de Janeiro. Entretanto, foi a chegada deste primeiro grupo trazido pelo Kasato Maru que iniciou um fluxo contínuo de imigração de japoneses para o Brasil. 

É este contexto, por exemplo do aprofundamento e reflexão histórica de que já havia japoneses no Brasil mesmo antes da chegada do Kasato Maru e relevância monumental de abordagem também de outros povos que se desenrola nosso trajeto. Assim, a ressignificação e a valorização das nossas ancestralidades em contexto plurinacional  são colocados em discussão durante o circuito do projeto, para amparo e enriquecimento da avaliação e entendimentos dos temas de memória.

Já a parada à frente das esculturas de Lydia Federici e Maria José Resende apontam para uma grande disparidade entre representações masculinas quando comparadas a das figuras femininas isoladas. A cidade de Santos tem apenas três monumentos em áreas públicas representando figuras femininas – apenas 3% dos cerca de 130 localizados em áreas públicas na cidade. Para piorar, as duas já citadas estão situadas lado a lado na orla da praia próximo ao canal 3, e a terceira – Maria Coelho Lopes – não se encontra mais no seu local original, na Zona Noroeste, por motivo de furto ou vandalismo. Lembrando: esse levantamento não inclui figuras míticas ou religiosas, como: Yemanjá, Ninfa e Sereias

Na cidade de São Paulo a situação é ainda mais crítica. Em informação de 2020, das 370 esculturas em locais públicos apenas 5 – 1,3% – são de representações de mulheres, levando-se em conta a exclusão de figuras genéricas e divinas, como na metodologia do caso de Santos.

Por fim, a escultura dos 500 anos do “Descobrimento” na praça do Aquário (Praça Vereador Luiz La Scala), de Regina Maria Lourenço Adegas e Rica Mota, foi construída pela comunidade portuguesa da cidade e foi inaugurada no Dia de Portugal, em 10 de junho de 1988. Mas, ao mesmo tempo: que território invadido homenageia os invasores em um dos lugares de maior destaque da cidade? E para ampliação da memória, quais as outras esculturas da cidade ou mesmo de outros locais homenageiam os povos originários que já estavam por aqui antes dos europeus? E com essa pergunta, é feita conexão com um monumento que fica na Universidade Federal de Santa Catarina.

Trata-se de um monumento que ajuda a entender a representação da caravela santista em homenagem aos 500 anos da conquista mas também, como um contraponto de valorização da memória às pessoas que estavam aqui antes do holocausto indígena chamado de descrobrimento. O monumento na UFSC foi inaugurado em 1995 e elaborado por Ivens Fontoura, Aurora Mendes e Márcia Simões. A motivação para criação do monumento surgiu da iniciativa de um dos reitores da Universidade, em 1992, de realizar um concurso para um projeto de edificação monumental. O Novo Sol​, além de representar a ruptura cultural ocorrida a partir do genocídio realizado pels europeus, segundo o Departamento Artístitico Cultural da UFSC, serve para “ser uma critica à forma como foi iniciado o processo colonial”,  formar “uma nova mentalidade de consciência crítica com relação à realidade”, e também “servir à recuperação da dignidade e emancipação dos povos, e à garantia dos direitos humanos”.

É este contexto histórico e de memória que, apoiado no ferramental da tecnologia, aberta temos a possibilidade de analisar e refletir que o projeto “Santos às cegas” propõe um roteiro inclusivo nos aspectos sensoriais e históricos, que vai além da contemplação artística ofertada pela cidade, mas sobretudo uma profunda argumentação para novos olhares experienciais e críticos ao modo que nos relacionamos com as comunidades e com outros cenários de apagamentos ou ainda, dos conteúdos valiosos deturpados ou assertivos a determinados contextos sociais e educacionais.

Dessa forma, o projeto aqui retratado tem sido fundamental para que pessoas com e sem deficiência conheçam e reconheçam estas abordagens, de modo livre e gratuito, por conta da parceria com a Prefeitura de Santos. Afinal, importa que saibamos a razão de existir de cada monumento, para que possamos questionar se seu papel social serve para reafirmar as relações de poder injustas ou para edificar um modelo de sociedade mais justo. Proporcionar esse conhecimento a todos e todas é auxiliar de forma decisiva na democratização do acesso à cidadania no município de Santos.

* Professor universitário, doutor em educação, mestre em Engenharia civil, promotor e articulador de projetos de inovação cidadã com foco na inclusão das pessoas com deficiência com o uso da fabricação digital. Autor do livro “O mundo em 3d”

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Giro Sustentável: da entrega explorada à entrega cooperada

Conforme a economia solidária ganha força como alternativa de organização do trabalho em uma sociedade desgastada pelas mazelas do capitalismo, mais se torna importante demonstrar como a autogestão pode proporcionar um escape desse modelo, enquanto permite o desenvolvimento humano dos indivíduos por meio de seus coletivos. Em São Paulo, dois ciclistas conversam com a Alternativas Solidárias para contar como uma cooperativa de entregas vem, na prática, demonstrando que tal premissa pode ser verdadeira.

Por Daniel Keppler *

A economia solidária tem na autogestão um de seus princípios basilares. De acordo com Paul Singer, por exemplo, é justamente por meio dela que Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) contestatários da exploração capitalista são capazes de reproduzir outros princípios em sua lógica organizacional, tais como: solidariedade, igualdade, participação e cooperação não competitiva nas atividades econômicas. Ou seja, a autogestão é um dos fatores principais a diferenciar um EES de outros modelos de negócio. 

Mas a autogestão ainda tem outro grande mérito: o desenvolvimento humano que proporciona aos praticantes. Nas palavras de Singer, em “Introdução à Economia Solidária”, “participar das discussões e de decisões do coletivo, ao qual se está associado, educa e conscientiza, tornando a pessoa mais realizada, autoconfiante e segura”. Ou seja: evolui o indivíduo enquanto beneficia a sociedade.

Cada EES ciente da tarefa necessária de construir outra economia é um pequeno exemplo desse processo na prática. E em São Paulo, um coletivo de ciclistas fundado em 2017 mostra que, em tempos de aplicativos exploradores e  uberização em massa, é possível valorizar o trabalho dos entregadores e couriers. Nessa edição, contaremos a história da Giro Sustentável e de como ela mudou a vida do Alan Jefferson Cunha e do Wilhans Augusto Marques, dois de seus cooperados.

Um movimento de classe

Alan está na Giro desde sua fundação, em 2017, e resume em uma frase o que motivou sua criação: “foi uma forma de tomar os meios de produção”. Ele prossegue:

“A gente sentia nas empresas como era, e queríamos algo que fosse nosso. Pois sabíamos quanto as empresas recebiam pelo nosso serviço, e quanto a gente recebia. Por isso, decidimos que a gente precisava criar algo nosso”, diz. 

Inicialmente, a ideia era criar uma empresa, mas por influência do professor Ivo Pontes, militante da Economia Solidária em São Paulo, surgiu a ideia de criar uma cooperativa de entregas. “Seguimos o conselho, e acertamos. Aqui, todos se sentem valorizados, algo muito importante para todo ciclista da Giro hoje. Eles se sentem reconhecidos no trabalho”, afirma Alan.

Entre os objetivos da Giro, destaque para a revalorização do ciclista profissional. Wilhans, que é o atual presidente da cooperativa, explica: “Queremos empoderar os ciclistas. É algo importante para que a confiança no ciclista seja recuperada, pois, principalmente depois dos apps, a qualidade do serviço diminuiu muito. Antigamente, com as empresas e os registros via CLT, a categoria era mais qualificada. Hoje, estamos na luta para que os ciclistas voltem a ser respeitados como eram antigamente”.

Foi um início difícil para a Giro. No início a cooperativa contava apenas com as entregas de um pequeno restaurante. “Fazíamos as entregas deles e íamos embora”, lembra Alan. Não era o suficiente para todos os sete cooperados na época. “Foi um começo mais na base da crença na causa do que em qualquer outra coisa. Mas mesmo com os problemas, a gente trabalhava com satisfação”, complementa.

Aos poucos, e com a ajuda de outros coletivos e EES, a situação foi melhorando – a não ser por um desafio inesperado: a heterogestão (gestão hierárquica) aplicada antes na cooperativa.

“Tudo era muito centralizado nas mãos do antigo presidente. Até o dinheiro era movimentado pela conta dele, e a transparência era praticamente zero”, recorda Alan. Essa situação foi gerando desconfianças, que perduraram até 2019 – ano em que Wilhans entrou na Giro. Ele lembra o fato que representou a ruptura definitiva com o antigo cooperado:

“Percebi que a cooperativa não tinha nada padronizado: bikes, uniformes, capacetes. Decidimos então fazer camisetas, mas o antigo presidente disse que não havia dinheiro no fundo”, conta.

Após algum tempo, ainda segundo Wilhans, a falta de transparência no uso dos recursos levou a cooperativa a convocar uma assembleia extraordinária, e o antigo presidente acabou expulso do quadro de cooperados.

Wilhans foi eleito presidente, em um momento crítico para a Giro, que foi reduzida a sete cooperados. A clientela foi reduzida e a própria cooperativa tinha uma série de pendências a regularizar, além de mais de R$ 7 mil em dívidas

Mas também havia boas notícias: entre 2019 e 2020, a cooperativa fez um curso de formação, através de um projeto da Rede Design Possível, que vencera um edital do BNDES dois anos antes. Nesse curso, os ciclistas da Giro aprenderam técnicas de gestão, atendimento e também receberam ferramentas de trabalho, como as bicicletas que foram adaptadas para o uso cotidiano da cooperativa.

Além disso, um novo contrato foi fechado, com uma empresa de comida congelada, que ajudou a cooperativa a crescer, principalmente após a pandemia. “Foi uma grande discussão interna, decidir se a Giro iria continuar abrindo ou não, mas acabamos decidindo continuar”, diz Alan. “No começo, foi como em um cenário de filme, sabe? As ruas desertas, como nunca tinha visto em São Paulo; os porteiros e clientes com medo de chegarem perto, receberem o pedido”, lembra. 

Mas seguindo uma política sanitária rígida, felizmente nenhum cooperado da Giro – são 16, atualmente – se contaminou com a covid-19, até hoje. E esperamos que assim continue!

Hoje, a Giro se orgulha em seguir em frente, com uma gestão horizontal e democrática, onde todos participam do cotidiano da cooperativa e planejam seu futuro. Os objetivos maiores são a busca de novos clientes e de um novo espaço, maior e que permita aos cooperados mais conforto, para alimentação e descanso; e também a inclusão de mulheres na equipe. “Já tivemos três no passado, mas não ficaram. Infelizmente esse é um meio onde há muito machismo e preconceito, mas queremos ter entregadoras na Giro Sustentável, e vamos nos organizar para isso ser possível”, finaliza Wilhans. 

A bike como companheira

Além da Giro Sustentável, Wilhans e Alan compartilham a paixão pela bicicleta. Para ambos, não se trata apenas de uma ferramenta de trabalho, mas de companheiras que ambos aprenderam a incluir nas próprias vidas – e entre os vários motivos para isso, um é especial: a mobilidade.

Alan mora em Carapicuíba, a 30 km da sede da cooperativa; já Wilhans vive em Barueri, e pedala 23 km para chegar à Giro. Mas nem sempre foi assim…

Antes de virar ciclista, Wilhans trabalhava em um banco. “Já fazia algum tempo que morava sozinho, pois saí de casa aos 14 anos. Passei muita dificuldade, cheguei a morar na rua. Mas sempre trabalhei. Cheguei a esse banco com 19 anos por indicação de uma prima. E com a rotina diária e a alimentação em excesso, acabei engordando. Um dia, jogando bola, passei mal… parecia que ia ter um infarto. Estava com 108 kg na época”, lembra.

Ele começou a pensar em maneiras de se cuidar, pois sabia que se não fizesse nada, poderia ter problemas muito sérios. Tentou ir na academia, mas não aguentou. “Aquilo não era para mim, na época. Os olhares das pessoas, você sozinho naquela esteira”, diz. Até que ele teve a ideia: e se tentasse pedalar de casa até o trabalho?

“Eu já tinha uma bike, mas usava pra coisas do dia a dia, como ir na padaria. Mas decidi naquele dia tentar ir para o trabalho. Eram 25 km de distância – vivia em Osasco na época. Cheguei no banco pingando de suor, mas feliz, afinal, tinha conseguido. Tomei um banho e, quando sentei na minha cadeira, estava tão energizado, que quase não acreditei!”, conta.

Ele decidiu que pedalaria até o trabalho dia sim, dia não. Pouco tempo depois, se pesou: havia perdido 18 quilos – e isso o motivou: passou a usar a bicicleta diariamente. Mas algo o incomodava: o próprio trabalho.

“Eu ia pedalando até o banco, vendo as paisagens, aproveitando a cidade, mas quando chegava naquela mesa, a rotina acabava comigo. Meta atrás de meta, pressão, correr atrás de cliente… decidi que tinha que mudar de vida. E saí do banco”, decidiu. 

Foi quando ele conheceu Alan. Com ele, descobriu o conceito de entregas por bike, algo novo na época. “Me apaixonei por isso. Eu já havia desbloqueado a ideia de usar a bike como transporte, então usá-la como trabalho era melhor ainda. Fui contratado por uma empresa, onde comecei com uma bicicleta simples, mas cinco meses depois, comprei outra, melhor”, lembra.

Ao sair dessa empresa, em 2017, Wilhans decidiu testar seus limites. “Decidi viajar de bike, até o Uruguai. Enchemos as bikes, eu e um amigo, e fomos… trinta dias até chegar ao Chuí, mais cinco dias até Montevidéu”, conta.

Foi após voltar dessa viagem, e de passar por algumas outras empresas como CLT, que, depois de alguns convites de Alan, ele decidiu ingressar na Giro Sustentável. “No início não sabia se devia entrar, pois sabia da fama não muito boa daquele antigo presidente. Mas decidi encarar, e deu tudo certo. Estamos aqui hoje, e daqui é só para melhor!”, finaliza.

Já Alan conheceu a bicicleta como uma forma de melhorar sua mobilidade. Ele trabalhava em um escritório no centro de São Paulo, e consumia cerca de quatro horas do seu dia indo e voltando do serviço, de trem e ônibus. “Isso me fazia trabalhar esgotado, sem falar no stress que passava durante todo o dia, inclusive no próprio transporte, por causa de toda a precarização do sistema”, diz.

A ideia de usar a bicicleta como transporte partiu de um amigo, em Osasco. Ele achava uma loucura, inicialmente. Mas a semente foi plantada. Até que um dia ele decidiu: passaria a usar a bike em substituição ao ônibus – e sentiu resultado. 

“Então mesmo após sair desse emprego, continuei usando a bicicleta, pois notei a diferença que fazia. Durante os protestos em 2013, vinha a São Paulo de bicicleta. E nunca mais parei, pois percebi que isso me trouxe uma autonomia que nunca tive com o transporte público. Passei a usar a bicicleta para tudo”, conta.

Para Alan, também foi uma forma de conhecer a cidade e as paisagens. Com o ônibus, segundo ele, existe uma restrição de localização, o que não existe com a bicicleta. “Com ele, você se aproxima da cidade, e é livre para se deslocar. A cidade passa a ser minha”, diz.

A ideia de ser livre se tornou um objetivo de vida para Alan. Se ele podia se deslocar livremente, por que não poderia também trabalhar para si, com o que gostasse, a fim de realizar os seus próprios sonhos – e não os de outras pessoas?

Foi assim que ele conheceu o trabalho de bike courier – e se apaixonou. Decidiu conhecer mais, se candidatou a uma vaga, mesmo com dúvidas sobre se seria capaz. “Fiquei pensando se eu conseguiria pedalar tanto, todos os dias. Fui aos poucos, e vi que dava. E é o que escolhi fazer, até hoje”, afirma.

Alan se considera uma prova viva de que é possível pedalar livremente pela cidade. “Aos poucos você vai conhecendo seus limites. Se você vê uma ladeira, e acha que não consegue subir, não deve ter vergonha de descer da bike e carregá-la. Um dia, você vai ser capaz de subir pedalando. É um ciclo de auto superação e reflexão”, conta.

A grande realização, para ambos, é ver o apoio das famílias, que antes não existia. “No começo, me mandavam procurar um emprego, e me diziam que isso não era vida. Mas eu persisti, e hoje são mais tranquilos. Viram toda a caminhada, e até se orgulham, tanto por eu ter continuado quanto por verem o que estamos fazendo”, diz Alan. Wilhans completa: “Eles diziam que não ia dar certo, que eu era louco. Minha mãe via o Datena falando na TV e se preocupava. Mas eu acreditava na bike, e vi que devia acreditar no sonho. O que era resistência na família, hoje é reconhecimento”.

* Daniel Keppler é jornalista (MTB 0087305/SP); trabalhou na versão digital do jornal A Tribuna; gestor de redes sociais e cooperado do Livres Baixada Santista

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Lavanderia 8 de Março: visibilizando mulheres por meio da economia solidária

Quando os tempos de crise batem à porta, a Economia Solidária se mostra uma importante ferramenta na recuperação de pessoas vulnerabilizadas à procura de novos caminhos para suas vidas. É isso que tem feito, há 12 anos, um Empreendimento Econômico Solidário localizado em Santos/SP, em uma das regiões mais precárias da cidade: a Lavanderia 8 de Março. Conheceremos a história de duas mulheres que trabalham no local, e que graças a ele tiveram suas vidas modificadas

Daniel Keppler *

Uma das maiores virtudes da Economia Solidária é a forma como ela exalta o desenvolvimento humano e a união em busca do crescimento e evolução da coletividade – o oposto do que se vê nas relações de trabalho no capitalismo.

É algo que se atesta fortemente nos Empreendimentos Econômicos Solidários (EES). Se no trabalho organizado pelo capital a realidade é um processo violento (e acelerado) de opressão, precarização e perda de direitos, nos EES o que se vê é cada vez mais coletivos beneficiando comunidades, através do trabalho baseado na autogestão, lógica construtiva no que diz respeito à dignidade.

Por isso, importa contar histórias de pessoas cujas vidas foram impactadas pela Economia Solidária. Nesse artigo, vamos conhecer a Ana Paula e a Luiza, mulheres e militantes da vida, que participam da Lavanderia 8 de Março, em Santos/SP.

Cooperativismo em prol de uma comunidade

Para entender a história da lavanderia, uma experiência solidária desenvolvida em simbiose entre movimento e poder público, conversamos com Marcia Farah Reis, psicóloga clínica, membro do Fórum de Economia Solidária da Baixada Santista e chefe da Seção de Cooperativas da Secretaria de Assistência Social (SEAS) da Prefeitura de Santos.

“A lavanderia foi uma sugestão de um partido político à prefeitura, e era uma demanda bastante antiga da região do Centro, para que as pessoas moradoras dos cortiços pudessem lavar e secar as suas roupas. A proposta era de que essas pessoas tivessem onde lavar as suas roupas”, afirma.

Mas no desenvolvimento do projeto, percebeu-se que ele podia mais. E se ele pudesse levar renda para as mulheres daquela região, e ser um agente de inclusão social e de transformação daquela comunidade, a partir da aplicação dos princípios da Economia Solidária? Foi quando se decidiu aplicar o modelo de cooperativa.

Os primeiros desafios vieram com sua inauguração, em janeiro de 2009. Percebeu-se que seu sucesso dependia de uma quebra da lógica capitalista que influenciava as relações de trabalho e consumo daquela comunidade. Isso foi feito com terapia comunitária, tanto para desconstruir a cultura que exaltava a relação patrão-empregado no ambiente de trabalho, quanto para combater o patriarcado capitalista que fazia as mulheres da lavanderia sofrerem com o preconceito, quando mais precisavam de apoio.

As sessões foram um sucesso, segundo Marcia. “As mulheres passaram a se olhar de uma maneira diferente, umas com as outras. Não mais competitivas, e sim solidárias. Os clientes passaram a ter um olhar mais respeitoso, e a comunidade começou a colaborar com o empreendimento”, diz.

Toda a administração e operação da lavanderia é feita pelas mulheres. Quando o SEAS indica uma nova mulher para ser acolhida, diretamente ou através do Projeto Fênix, deve ser aprovada pelas que já são cooperadas. Ao iniciar o trabalho, ela é ensinada pelas próprias colegas, que dividem seu conhecimento. As responsabilidades são partilhadas, e as decisões são tomadas em assembleias.

E assim, já são 12 anos de história, mudando a vida de muita gente, por meio do trabalho autogerido e também pelo exemplo. “A mudança de comportamento que ocorre dentro de um EES é cultural. Você leva para dentro da sua casa, para seus filhos. E assim esses ensinamentos vão se reproduzindo na sociedade. A princípio a gente pensa que a Economia Solidária é só sobre gerar renda, mas é muito mais do que isso. É uma transformação pessoal, e é a partir dessa transformação pessoal que a gente tem o ideal de transformar a sociedade”, conclui Marcia.

Luiza: uma chance de recomeçar

Luiza nos atendeu virtualmente, para sua segurança devido à pandemia. Com 59 anos e carreira na área administrativa, sua história é parecida com a de tantas outras mulheres Brasil afora: formada, experiente, mas empurrada para fora do mercado de trabalho pelas empresas capitalistas. “Minha mãe teve câncer, e eu tive que parar de trabalhar para cuidar dela. Quando voltei, me disseram que eu ‘não tinha o perfil’. Era 2013 nessa época”, conta.

Foram cinco anos desempregada, até que Luiza foi indicada por uma conhecida para trabalhar na Lavanderia 8 de Março. “Eu já sabia que a lavanderia existia, mas não sabia que era um projeto de Economia Solidária”, conta. Ela foi aprovada.

“Era algo totalmente novo né. Me deu um pouco de medo, mas eu tinha essa amiga que me indicou, que foi um ombro amigo, e todas as outras que me acolheram muito bem”, relembra ela, que continua: “Elas me ensinaram todos os procedimentos, e com o tempo tive a chance de também ajudar na parte administrativa, que faço de casa atualmente, por causa da pandemia”.

Agente de transformação

Para Luiza, a lavanderia representou não apenas a oportunidade de voltar a trabalhar, mas de mudar toda a vida a partir dos princípios da Economia Solidária e do cooperativismo. Segundo ela, muito do que aprendeu nesses três anos foi trazido para sua casa – ela vive com sua companheira, sogra e um filho.

“Estar na lavanderia é uma transformação, tanto como profissional como mulher. Você é empoderada, pois embora tudo seja feito em conjunto, você nunca está submissa a alguém. É libertador. E a profissão é muito boa, aprendi muito”, conta. “Até nosso dinheiro aprendemos a cuidar mais. Hoje, quando eu posso, eu guardo um pouco para emergências”.

Luiza também diz que o trabalho na lavanderia mudou radicalmente seu pensamento sobre muitas coisas. “A ideia de resolver os problemas na conversa, com paciência, é muito importante lá. Temos que resolver tudo entre nós, então fazemos várias reuniões, às vezes duas, três por semanas, e se alguém tem algum problema, vamos conversar até resolver”, diz.

Ela recomenda a toda mulher que estiver se sentindo vulnerável que peça ajuda. “Por mais dificuldades que existam, você sempre precisa acreditar. Há pessoas boas no mundo, e a Economia Solidária é um gigante que está acordando e fazendo essas pessoas se unirem e abrirem os braços a quem precisa. Então acreditem, e busquem auxílio. Eu sempre ouvi dizer quando trabalhava lá fora um ditado que falava ‘entre eu e você, dane-se você’. Aqui é o contrário: entre eu e você, somos nós”.

Ana Paula: um refúgio do sofrimento

Ana Paula recepcionou a reportagem na lavanderia, que acabara de abrir. Sua tarefa naquela segunda-feira era o atendimento no balcão, e foi lá, entre um atendimento e outro, que ela contou um pouco sobre si. “É uma história triste, mas não guardo mágoas”, disse.

Ana Paula nasceu em Santos, há 46 anos – mas não conhece sua origem. Sua mãe biológica a abandonou com três dias de vida. Com sua mãe de criação, aprendeu seus princípios e estudou. “Mas só até a sexta série, pois tinha que trabalhar para ajudar em casa”, conta.

Aos 17 anos, teve sua primeira filha, e logo em seguida se casou, com quem teve mais três filhos. Nessa época conheceu outros traços do capitalismo patriarcal: o machismo estrutural e a violência doméstica. Por isso, quando uma conhecida lhe ofereceu ajuda para sair daquela vida e trabalhar na colheita de morangos no sul da Inglaterra, ela viu uma chance de escapar.

Os anos difíceis na Europa

Mas Ana foi enganada e, por dois anos, foi vítima do pior tipo de escravização que se pode sofrer. Escapou graças a um português que a levou a seu país, e com quem teria um filho. Pouco depois se separou, e ficou sozinha em Portugal. Passou fome, trabalhou em diversos lugares, chegou a comer do lixo. “Mas tive uma vida honesta”, salienta.

Foi quando Ana Paula conheceu o pai de sua filha mais nova. “Foi o pior inferno da minha vida”, segundo ela. “Ele queria um filho, e apaixonada como eu estava, engravidei. Só que de uma menina”, lembra. As violências, ofensas e ameaças de todo tipo culminaram em uma surra que a levou ao hospital, já grávida de seis meses, com risco de morte – dela e da filha. Contra todos os diagnósticos, ambas sobreviveram. “Por isso minha filha se chama Vitória. Ela é um milagre”, recorda.

Vitória precisou de quatro meses em uma incubadora para sobreviver, o que prejudicou sua formação; já Ana ficou 48 horas em coma, e passou por uma longa recuperação. O ex-marido foi processado e condenado pela Justiça portuguesa a 16 anos de prisão, por homicídio na forma tentada.

A volta ao Brasil

Após viver três anos em uma instituição para mulheres vítimas de violência doméstica, Ana Paula precisou voltar ao Brasil para ajudar a mãe, que cuidava de suas filhas. E então, velhos problemas bateram à porta.

Ela foi para o morro do José Menino, onde vive até hoje. “Meu aluguel custava R$ 700, e quando o dinheiro que eu trouxe acabou, só o Bolsa Família não dava conta. Quando o aluguel atrasou cinco meses, a proprietária me disse: ‘ou você arruma o dinheiro, ou vou ter que te despejar’. Foi quando desabei”, diz.

Decidiu, então, procurar a SEAS, onde foi para o Projeto Fênix. Foram vários postos de trabalho, até que em setembro de 2020, foi encaminhada à lavanderia – um susto para ela, na época.

“Eu não queria ir no começo. Me sentia punida, porque não queria sair de onde estava. Não sabia fazer nada ali! Aí eu conheci a Marcia, que me acolheu e explicou: ‘A proposta do projeto é exatamente essa: te ensinar tudo o que você precisar saber para trabalhar lá’. Então eu fui”, conta.

Na lavanderia, Ana Paula aprendeu como o EES funcionava e o que era Economia Solidária. “Na lavanderia, todas me receberam muito bem, e ensinaram tudo que sabiam. Aprendi a etiquetar as peças, a dobrar, lavar e até mesmo a passadoria aprendi a fazer, o que era meu grande medo, pois o aparelho é para destros – eu sou canhota!”, lembra, rindo.

Ainda assim, o medo de decepcionar era forte. “Temia não conseguir agradar, não saber fazer. Mas minhas amigas não me deixaram sair, e hoje eu é que não quero. Aqui tem tudo o que prezo na vida”, revela.

Para complementar a renda, Ana faz trabalhos de manicure e faxina, e está fazendo um curso de cabeleireira. Mas dessa vez, ela encara os desafios de uma forma diferente, graças a tudo que tem aprendido na lavanderia. E é grata por isso.

“Aqui somos umas pelas outras. Se alguma máquina avariar, sai do bolso das cooperadas, que também só ganham se tiver cesto de roupa para lavar. É realmente como se a lavanderia fosse delas. E isso não tem preço, pois lá fora uma mulher de 35 anos já é velha para trabalhar, mas aqui somos mulheres de 40, 50, 60 anos, e somos todas iguais. É o que me faz querer ficar aqui”, finaliza.

* Daniel Keppler é jornalista (MTB 0087305/SP); trabalhou na versão digital do jornal A Tribuna; responsável pela gestão de redes sociais do Livres Baixada Santista, onde atua desde 2020.

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