Metalcoop: quando os trabalhadores tomam nas mãos o próprio futuro

Uma empresa tradicional, referência em seu segmento mas a ponto de falir; dezenas de trabalhadores desiludidos, a ponto de perderem a esperança no próprio futuro; um ultimato impensado, que adianta uma transformação na história de todos. Três partes de uma história que resultou na criação da Metalcoop, uma cooperativa de destaque no mercado, graças ao uso da tecnologia de forjamento a frio de metais em seu processo produtivo. Conheça a fantástica história desse empreendimento, através das palavras do diretor Cláudio Domingos da Silva *

A Economia Solidária é um universo que precisa ser continuamente explorado, por ser, pelo menos, tão vasta quanto o tamanho do que conhecemos por “economia” e seus segmentos.. Um desses, que ainda não havia sido explorado aqui na Revista Alternativas Solidárias, é aquele no qual trabalhadores de empresas em crise financeira (ou já falimentar) tenham a possibilidade de manter os próprios postos de trabalho, assumindo a gestão das mesmas. São as chamadas Empresas Recuperadas pelos Trabalhadores, ou ERT’s. 

Levantamento feito em 2013 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada revelou que, na época, havia 67 ERT’s no Brasil, com quase 12 mil trabalhadores a elas vinculados. Boa parte delas (45%) eram do ramo da metalurgia, e nada menos que 85% delas optou por adotar a forma jurídica de cooperativa ao se formalizarem.

Trata-se de um movimento recente no Brasil, onde a Cooperativa de Extração de Carvão Mineral dos Trabalhadores de Criciúma (Cooperminas), recuperada em 1987, foi uma das experiências pioneiras. A partir de então, foram vários os exemplos bem sucedidos – incluindo, aí, o que iremos conhecer a partir de agora: a Metalcoop, recuperada em 2002 e localizada em Salto.

Entendendo o passado

Para entendermos o contexto de surgimento da Metalcoop, é necessário falar sobre a empresa que existia antes: a Picchi, uma indústria metalúrgica. Foi ela que, em 1986, contratou Cláudio como funcionário. 

“A Picchi era muito conhecida, uma referência, pois atuou 53 anos no mercado. Ela atuava basicamente na produção de peças para a indústria bélica e também para o segmento agrícola. Mas com os anos, e principalmente após o fim da Guerra Irã-Iraque (1988), a empresa começou a ter dificuldades, e precisou buscar outros mercados, como o automotivo”, explica.

O problema é que, no meio dos altos e baixos, os funcionários geralmente eram os mais prejudicados. Nos anos de crise, eram frequentes os atrasos de salário e o não-cumprimento de garantias trabalhistas, o que gerava insatisfação. Cláudio observava tudo atentamente, pois fazia parte do movimento sindical, e buscava organizar os trabalhadores na luta pelos seus direitos.

Após a segunda metade dos anos 1990, porém, a situação foi indo de mal a pior. “O faturamento da empresa despencou, e fomos descobrindo uma série de problemas e irregularidades: quase todos os funcionários tinham férias vencidas; o fundo de garantia estava há anos sem depósitos; e até mesmo fornecedores estavam sem receber. A gota d’água foi quando descobrimos que nem mesmo a companhia de luz era paga. Como uma fábrica vai trabalhar sem energia?”, questiona. 

A essa altura, a empresa havia escalado um diretor apenas para comparecer à fábrica e prestar contas a uma comissão de trabalhadores que foi criada. “Mas as reuniões com esse diretor eram inúteis. Os números que ele apresentava só estavam no papel, não eram reais. E no final, ele sempre afirmava que a empresa não tinha dinheiro para pagar os salários, então simplesmente dividia o que dizia ter para todos. Mas isso não agradava ninguém, pois esse valor nunca chegava perto de um salário mínimo sequer. Para quem recebia pouco, o prejuízo até era menor, mas quem recebia mais ficava revoltado, e com razão”, conta. 

Até que, um dia, tudo mudaria. “Me atrasei para uma dessas reuniões, e quando cheguei, ela já havia acabado. Mas conversamos, e durante a conversa eles me questionaram sobre o que a gente queria. E eu respondi, sem pensar: queremos a fábrica! A primeira reação deles foi de desdém. Me perguntaram quem seria o presidente, o que faríamos com a fábrica. Então o presidente, que nesse dia estava lá, me chamou de canto, perguntou se era sério, e após eu dizer que sim, pediu alguns dias”, lembrou.

Eles realmente responderam alguns dias depois: informaram que fechariam a fábrica e demitiriam todos os funcionários, sem pagar nada a ninguém. Para muitos, seria um alívio, pois poderiam buscar outra colocação. “Mas insistimos na ideia, e fizemos uma proposta: arrendar a fábrica, e seus equipamentos. Eles poderiam se livrar dos funcionários e das responsabilidades, e nós seguiríamos produzindo naquele espaço, agora por conta própria. A Picchi aceitou”, revela. 

Tudo foi oficializado em agosto de 2002. A Metalcoop foi fundada no dia 25, o dia em que todos os desafios começariam a ser enfrentados: a cooperativa começava com 89 pessoas, uma fábrica sem luz elétrica, uma dívida superior a R$ 500 mil, e praticamente sem faturamento, pois mal tinha clientes.

Construindo a própria credibilidade

Não foi fácil para a Metalcoop se estabelecer no mercado. Primeiro, pois havia um grande desafio inicial, e tudo dependia dele: a conta com a fornecedora de energia. “A antiga empresa já havia feito um acordo para pagar a dívida, e não estava pagando nem o acordo nem as faturas seguintes”, conta Cláudio. Mas depois de muito esforço, os trabalhadores conseguiram negociar o débito, e enfim puderam iniciar os trabalhos.

Então surgiu o segundo desafio: retomar os laços com antigos fornecedores e clientes da Picchi. Por conta da má gestão da empresa, sobretudo nos seus anos finais, muitos haviam se afastado. E quando a Metalcoop abordava essas empresas, a primeira reação era negativa. “Alguns perguntavam sobre ex-diretores da Picchi, pois não entendiam que a gestão era nossa, agora. Outros nem queriam nos atender, devido a dívidas que não foram honradas”, afirma. 

Em uma das primeiras negociações, Cláudio lembra que a própria Metalcoop arcou com a matéria-prima da peça encomendada. A empresa ainda não tinha a inscrição estadual, e todo o acordo foi verbal: o cliente confiaria que a peça seria feita, e a Metalcoop confiaria que receberia o pagamento após a entrega. Ao final, tudo deu certo, e quando a cooperativa se regularizou e passou a emitir nota fiscal, a primeira foi para esse cliente, que segundo Cláudio ainda encomenda peças com eles.

Outro grande passo da cooperativa foi a conquista, em 2004, do certificado ISO 9001. “Era uma certificação fundamental para que a gente entrasse em um mercado muito importante, o automobilístico. Tínhamos vários clientes à espera apenas de que a gente tivesse essa certificação. Com muito trabalho e ajuda, principalmente do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), conseguimos contratar uma consultoria. Eles queriam 14 meses para concluir o trabalho, mas houve muito esforço e em seis meses tudo foi feito”, relembra. 

O resultado foi espantoso: após a certificação, em junho, o número de encomendas explodiu, e o faturamento da Metalcoop subiu de R$ 300 mil naquele mês para mais de R$ 750 mil em setembro. Hoje, eles também contam com o ISO/TS 16949, uma especificação ISO que alinha as normas dos sistemas de qualidade automotiva existentes – brasileira, americana, alemã, francesa e italiana – dentro da indústria automotiva global.

A cooperativa seguiu crescendo ao longo dos anos, e atualmente possui uma carteira de clientes sólida e é bem estabelecida no mercado. Apenas recentemente, com a pandemia, a fábrica ficou parada por alguns meses, segundo Cláudio. “Optamos por deixar os trabalhadores em casa, mas seguimos pagando a todos. Retornamos com as atividades em setembro, depois que definimos todos os cuidados sanitários a tomar: máscaras, álcool em gel, distanciamento, entre outros. Mas quando alguém tem suspeita de covid, a pessoa é afastada, assim como quando alguém na família é contaminado”, afirma. Graças a esses cuidados, de acordo com ele, apenas duas pessoas foram contaminadas até o momento, nenhuma delas de forma grave.

A busca pela justiça nos ganhos

A Metalcoop tem uma política de retirada por funções, e um princípio firmado desde o início: a retirada mais alta nunca pode ser superior a cinco vezes a retirada mais baixa. É uma maneira, segundo Cláudio, de garantir que todos possam receber um bom valor mensalmente, mas ainda assim garantir que o empreendimento não perca para o mercado aquelas pessoas que cumprem funções mais especializadas.

Hoje, a Metalcoop conta com 33 cooperados, e segundo Cláudio ninguém retira menos de R$ 3500, complementados por previdência social, tanto via pessoa jurídica como física, auxílio alimentação, plano de saúde e outros benefícios. “Se considerarmos que temos, entre nós, funcionários com muito pouca instrução, é um ganho muito maior do que poderiam ter lá fora, em outras empresas”. No entanto, o inverso é verdadeiro: os mais qualificados acabam por receber menos do que a média do mercado.

Mas por que, então, essas pessoas continuam na cooperativa? Para Cláudio, a resposta é simples. “Aqui, trabalhamos um pouco pela nossa retirada, sim, mas um pouco também pela ideologia, e por tudo que o nosso trabalho gera, para nós mesmo e para a comunidade. É o que nos motiva”, complementa. 

O desafio de ser cooperado

Cláudio lembra de uma passagem, no início da existência da Metalcoop, que ilustra bem como pode ser desafiador conscientizar trabalhadores acostumados com uma lógica de mercado capitalista, baseada na carteira de trabalho assinada e na garantia de direitos trabalhistas, a se tornarem “donos” da própria empresa.

“Não foi fácil para todos entenderem o que era cooperativismo, e o que significava ser cooperado. Alguns não conseguiam associar a ideia de que os ganhos só viriam mediante trabalho, e que se em um mês não houvesse trabalho, por exemplo, também não haveria retirada. Eu ouvia coisas como ‘mas no mês seguinte recebemos dobrado então, certo?’” – lembra-se, rindo – “E eu explicava que não funcionava assim. Alguns desistiram no início por isso, por não entenderem ou não acreditarem mesmo.”

Além disso, implementar a disciplina que um cooperado deve ter também foi um desafio. Cláudio aprendeu na pele que certos hábitos não poderiam ser abandonados, pelo bem do dia-a-dia da cooperativa.

“Eu sempre tive um sonho: que os trabalhadores nunca mais tivessem que marcar cartão. Era algo que sempre quis poder fazer por eles. Então, quando criamos a Metalcoop, pensei: finalmente, vou poder realizar esse sonho”, lembra.

Mas as coisas não ocorreram exatamente como ele esperava: os trabalhadores, desacostumados com a ideia, não cumpriam com os horários. “Eles diziam que agora também eram donos, então podiam trabalhar quando quisessem, e eu pensava: entenderam tudo errado! Pois o dono deve dar exemplo, ser o primeiro a chegar. Então infelizmente tive que enterrar o sonho, e até hoje marcamos o cartão aqui”, afirma.

Foi algo complicado para os trabalhadores entenderem: dormir como empregado, e acordar como sócio do próprio negócio. E como, então, essa mentalidade foi modificada? Segundo Cláudio, com conscientização, e muitas reuniões.

“Temos que contar uns com os outros. Fazemos as assembleias regularmente e procuramos manter toda a transparência, para que eles vejam o resultado do próprio trabalho e entendam como é importante a dedicação de todos. Precisamos manter essa mentalidade, senão a cooperativa não anda, e a gente não pode parar”, conclui.

* Texto redigido por Daniel Keppler. Jornalista (MTB 0087305/SP); trabalhou na versão digital do jornal A Tribuna; gestor de redes sociais e cooperado do Livres Baixada Santista

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Uma tecnologia solidária e emancipatória é possível?

Por muito tempo, um dos paradigmas centrais da esquerda era o de “desenvolvimento das forças produtivas”. Mas que forças produtivas? Forças que produzem o que, para quem e como? O fato é que diante de imensos “progressos” tecnológicos, a fome segue e o colapso ambiental se acelera. Contra as chamadas “forças destrutivas” do Capital, Sandra Rufino nos diz que a tecnologia não é neutra, e que a tecnologia social e a tecnociência solidária podem ser alternativas para o empoderamento dos trabalhadores na construção de outra economia.

Por Sandra Rufino *

A ciência e a tecnologia avançaram muito nos séculos XX e XXI, muitas conquistas no âmbito da saúde, telecomunicação, indústria, serviços, agricultura, entre outros. Entretanto, mesmo com tantos avanços, ainda não fomos capazes de acabar com a fome e a desigualdade. Os impactos negativos sociais e ecológicos gerados por um modelo convencional de produção são insustentáveis. Estamos nesse modelo matando e extinguindo os diversos tipos de vida no planeta, inclusive a nossa.

A ciência, com o termo originado do latim scientia (conhecimento), significa um conjunto de saberes sistematizados e aprofundados sobre algo ou alguma coisa. Já a tecnologia, oriunda do grego antigo tékhnē (técnica, arte ou ofício) e lógos (estudo), significa o estudo de conjunto de técnicas. Ao resgatarmos a essência dos dois termos, é possível perceber que tanto a ciência quanto a tecnologia não são exclusivas da academia e empresas, e sim de toda a sociedade. Mas que, ao passar dos séculos, foram sendo apossadas e, talvez por isso, temos dificuldades de reconhecer que os povos africanos, indígenas e tradicionais tenham sido capazes de grandes feitos.

A ciência está intimamente ligada com a tecnologia; boa parte dos avanços de uma foram alcançadas por meio da outra. Portanto, nosso propósito aqui é propor uma reflexão sobre que tipo de tecnociência produzimos e nos indagar: para que ela serve, para quem, como e por que ela é criada?

Os primeiros estudos sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) com o objetivo de avaliar os impactos que a tecnociência pode trazer à sociedade datam do final dos anos de 1960 e início dos anos 1970. A motivação desses estudos e movimento foram as preocupações com a natureza e com o desenvolvimento de bombas químicas e nucleares. Criticando a crença de resultados positivos e a neutralidade da ciência e da tecnologia.

Muitos movimentos (acadêmicos e da sociedade civil) criticam o modo de produção hegemônico e buscam construir coletivamente alternativas tecnológicas que atendam às demandas sociais dos mais vulneráveis, buscando assim equidade, justiça social e desenvolvimento sustentável. 

O movimento da tecnologia apropriada (TA) começou, ou pelo menos se inspirou, na experiência da Índia na década de 1920, liderada por Gandhi com o resgate do uso das rocas tradicionais como resistência e enfrentamento a dominação inglesa em seu país (Dagnino; Brandão; Novaes, 2004). A TA, de modo geral, transfere soluções tecnológicas desenvolvidas nos países centrais para os países da periferia, oferecendo-as em versões simplificadas: de baixo custo e de fácil construção, operação e/ou manutenção (Thomas, 2009). Esse movimento só chegou na América Latina na década de 1960, mas a fome e miséria não desapareceram e as soluções de tecnologias “prontas e adaptadas” não respondiam a todas as problemáticas na América Latina. Então, houve, em meados da década de 1990, o ressurgimento de iniciativas para mitigar os problemas e para transformação social, as quais foram chamadas de tecnologia social (TS) (Thomas, 2009).

No Brasil, a TS surge no final da década de 1990 e início dos anos 2000 a partir da articulação de várias instituições (movimentos sociais, sindicatos, ONGs, universidades, gestores públicos) e que valorizavam a perspectiva popular e democrática. A tecnologia social é o conjunto de: produtos (artefatos ou serviços), técnicas e/ou metodologias reaplicáveis e transformadoras, o qual deve ser desenvolvido e aplicado na interação com a comunidade e apropriado por ela, representando efetivas soluções para a inclusão social e melhoria das condições de vida (ITS, 2004). O Instituto de Tecnologia Social define os seguintes parâmetros para o desenvolvimento da TS:

1: Quanto à sua razão de ser: visa à solução de demandas sociais concretas, vividas e identificadas pela população; 

2: Em relação aos processos de tomada de decisão: usa formas democráticas de tomada de decisão, a partir de estratégias especialmente dirigidas à mobilização e à participação da população; 

3: Quanto ao papel da população: há participação, apropriação e aprendizagem por parte da população e de outros atores envolvidos; 

4: Em relação à sistemática: há planejamento, aplicação ou sistematização de conhecimento de forma organizada; 

5: Em relação à construção de conhecimentos: há produção de novos conhecimentos a partir da prática; 

6: Quanto à sustentabilidade: visa à sustentabilidade econômica, social e ecológica; 

7: Em relação à ampliação de escala: gera aprendizagens que servem de referência para novas experiências. Gera, permanentemente, as condições favoráveis que deram origem às soluções, de forma a aperfeiçoá-las e multiplicá-las.

Uma das bases importantes para a TS é desenvolver uma solução tecnológica que tem como princípio o diálogo e a valorização dos diferentes conhecimentos (integração entre conhecimento acadêmico e saber popular). Busca contribuir para a emancipação das classes populares, por meio da apropriação do processo de desenvolvimento e uso das tecnologias.

No uso da tecnologia social, há o pressuposto da construção de soluções de modo coletivo pelos que irão se beneficiar dessas soluções. Tais agentes atuarão com autonomia, não sendo apenas usuários de soluções importadas ou produzidas por equipes especialistas, como acontece com as tecnologias apropriadas. O impacto da TS se dá no indivíduo e no coletivo. Com objetivo de apropriação do conhecimento, desde a concepção a implementação da tecnologia social demandada pelo local, podemos considerar quatro grandes impactos: 1) apropriação do conhecimento; 2) sentimento de partilha com o desenvolvimento da tecnologia e em seus resultados; 3) exercício da democracia; 4) a emancipação do indivíduo e da comunidade que poderá, não só multiplicar as tecnologias desenvolvidas, mas também ter a capacidade de desenvolvimento de outras.

O caminho até as novas tecnologias

Muitos ainda podem se questionar o quão distante as tecnologias sociais estão das chamadas novas tecnologias ou hightech. Considerando que a tecnologia social é a construção coletiva de artefatos (produtos), e/ou métodos/ técnicas que permitam impulsionar processos de empoderamento de trabalhadores e comunidades como alternativas de desenvolvimento, ela não está distante (e nem poderia) das novas tecnologias. O que vai depender dessa proximidade ou não é a necessidade dos trabalhadores e comunidades envolvidas. 

Na Comunidade de Deus, no Rio de Janeiro, por exemplo, foi necessário o desenvolvimento de TS para rádio e portal de internet comunitários. Já para a população do conjunto Palmeiras da periferia de Fortaleza que utiliza moedas sociais, o banco Palmas, para obter maior alcance dessas moedas (utilizadas nos bancos comunitários), fez-se o uso de aplicativo em rede com outros bancos comunitários para o uso da moeda social em formato digital: e-dinheiro.

As tecnologias sociais são desenvolvidas para as necessidades mais latentes das comunidades, e seus objetivos são de difusão, sem fins lucrativos, para outras comunidades necessitadas. Buscam o objetivo de bem comum e uso de todos daquela comunidade. Os valores que regem as tecnologias sociais estão ligados à cooperação e à solidariedade. Vimos em muitas comunidades, durante a pandemia, o desenvolvimento de métodos ou técnicas que podem ser consideradas tecnologias sociais, por terem como objetivo ajudar os que mais sofriam/sofrem com a pandemia e o agravamento das crises que já existiam nesses locais. A rede de mapeamento, comunicação e apoio da comunidade do Morro do Preventório, por meio de um banco comunitário no Rio de Janeiro, o Banco Preventório, e outros exemplos vinculados ao movimento das favelas, podem ser considerados exemplos desse enfrentamento e de como as tecnologias sociais podem ajudar as comunidades nas várias crises, não apenas na pandemia.

Os resultados positivos do desenvolvimento e da transformação social se tornaram visíveis e, por isso, o tema TS passou a compor como pauta para fortalecer as políticas públicas de geração de trabalho e renda a fim de atender trabalhadores(as) dos grupos populares (rurais, autônomos, informais, de empreendimentos de economia solidária (ECOSOL), povos e comunidades tradicionais entre outros).

Nos últimos 20 anos, a Fundação Banco do Brasil conseguiu criar um banco de dados sistematizando e promovendo premiações para tecnologias sociais em todo território nacional em diversos temas: alimentação, educação, energia, habitação, meio ambiente, recursos hídricos, saúde, entre outros. 

A Tecnociência Solidária

Muitas ações de TS estão vinculadas à ECOSOL, que é composta por formas de organização econômica – produção, comercialização, finanças e consumo – construídas com base nos valores e princípios como: do bem viver em equilíbrio e com respeito a natureza e a vida; da autogestão e da democracia; da cooperação e da solidariedade; da prática do comércio justo e do consumo solidário; do reconhecimento do lugar fundamental da mulher e do feminino na construção de um novo modo de produção; e da justiça a distribuição dos resultados.(Singer, 2002; FBES, 2021)

As pessoas se unem e cooperam de maneira solidária, formando os Empreendimentos Econômicos Solidários. Se organizam coletivamente, porque desta forma se tornam mais fortes para enfrentar as diversas crises (econômica, social, ambiental, saúde, educação etc.). A ECOSOL, apesar de muitas vezes crescer nas crises por ser a única opção que resta aos trabalhadores/as, é um modo de produção que emancipa a todos e todas. A ECOSOL permite a produção e reprodução da vida, o desenvolvimento sustentável, a equidade e a justiça social, além da paz. É um movimento centrado na valorização das pessoas e na luta contra as desigualdades sociais.

Na união da TS com a ECOSOL surge a tecnociência solidária. Entretanto, segundo o autor Renato Dagnino (2020), esse termo deveria substituir o de tecnologia social e de outros aparentemente semelhantes como as tecnologias de base, sustentável, responsável, inclusiva, frugal, além da inovação social, entre outros com a mesma postura política de criação de uma ciência e tecnologia alternativas. Para o autor, não devemos separar em desenvolvimento de ciência e tecnologia, pois sempre construiremos os dois conjuntamente. Sendo a construção da tecnociência solidária baseada nos valores e princípios da ECOSOL, isso permitirá a ela o desenvolvimento de uma tecnociência que busque verdadeiramente uma transformação social.

Referências

DAGNINO, Renato. Tecnociência Solidária: um manual estratégico. Lutas Anticapital. Marília, 2ª edição, 2020. 161 p.

DAGNINO, R.; BRANDÃO, F.; NOVAES, H. Sobre o marco analítico-conceitual da tecnologia social. In: LASSANCE Jr. et al. (ed.) Tecnologia social: Uma estratégia para o desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundação Banco do Brasil, 2004. p. 15- 64

FBES – Fórum Brasileiro de Economia Solidária. Disponível em: https://fbes.org.br/

INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL (ITS). Caderno de debate tecnologia social no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Raiz, 2004.

SINGER, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2002. 127p. 

THOMAS, H. De las tecnologías apropiadas a las tecnologías sociales. Conceptos / estrategias / diseños / acciones. Primeras Jornadas de Tecnologías Sociales.Programa consejo de la demanda de actores sociales – MINCyT. Buenos Aires, 2009.

* Sandra Rufino é professora associada do depto. de engenharia de produção da UFRN. Possui mestrado e doutorado em Engenharia de Produção pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e pós-doutorado em Tecnologias Sociais pela Université Catholique de Louvain – UCL. É membro fundadora da Rede de Engenharia Popular Osvaldo Sevá (REPOS),  conselheira dos Engenheiros Sem Fronteiras – ESF Brasil, orientadora ESF Natal  e ENACTUS UFRN.

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O desenvolvimento local costurado pela Justa Trama

A Justa Trama conecta mais de 500 trabalhadoras e trabalhadores espalhados por cinco estados – Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rondônia e Rio Grande do Sul, atuando em rede na cadeia de processamento do algodão, gerando trabalho, renda e regeneração ambiental em seus territórios. Por meio dela, plantio, fiação, tecelagem, coleta de sementes para confecção de botões e adornos, serigrafia, bordado e tingimento formam um circuito solidário por fora da lógica capitalista desde a semente até nossos guarda-roupas. A Justa Trama mostra que costurar outra economia baseada em desenvolvimento local – diferente daquele que só extrai, impacta e desagrega – é possível.

Por Nelsa Nespolo *

Não há dúvida que a Economia Solidária (Ecosol) é uma estratégia de desenvolvimento, especialmente no século XXI e na conjuntura em que vivemos, com um governo genocida que debocha da vida humana. Agravando esse quadro, um tempo de pandemia que já matou mais de 400 mil brasileiras e brasileiros que estavam cheios de vida. A consequência disso são os mais de 14 milhões de pessoas desempregadas e 6 milhões que desistiram de procurar trabalho, os 27,2 milhões de brasileiros (as) na miséria absoluta, vivendo com menos de R$ 8,20 por dia e, também, a explosão no número de bilionários do mundo – cerca de 660 novos super-ricos, que totalizam 2755 pessoas possuidoras de mais de 1 bilhão de dólares no mundo.

A Ecosol tem uma trajetória ainda curta de vida, porém se fortalece especialmente a partir da década de 1990, quando haviam cerca de 869 empreendimentos econômicos solidários (EES). Em 2020 pulamos para quase 20 mil empreendimentos. A Ecosol cresceu não só no Brasil, mas na América Latina, surgindo com uma influência forte da Igreja Católica, especialmente da Teologia da Libertação, e se fortalece sobretudo com governos populares e suas políticas públicas.

Apesar das várias experiências de políticas públicas, majoritariamente a nível dos municípios, em âmbito nacional a Ecosol surge com força a partir de 2002 com a eleição do presidente Lula, um trabalhador metalúrgico que tem conhecimento da Ecosol e do cooperativismo e cria a partir da demanda do movimento, uma Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES). Foi um período de fortes discussões, com dificuldades de lidar com o novo cenário em dois aspectos: de um lado está na gestão pública, que em alguns momentos se sente no controle das definições, e do outro lado está o movimento querendo fazer valer suas posições.

Apesar de muitas vezes as discussões serem acirradas, tal fato reflete também o bom debate. Não foram poucos os momentos de confronto e do não consenso como por exemplo a definição das organizações que comporiam o Conselho Nacional de Economia Solidária, ou na dinâmica do primeiro encontro nacional de EES e até mesmo a proposta de inclusão ou não do artigo 7º na nova lei das cooperativas de trabalho. Tarefa difícil.

Por que? Será que temos interesses diferentes? Ou será que temos visões diferentes? O papel do Estado é visto diferente por quem esta na gestão em relação aos que estão na ação?

A construção

A busca de fazer valer uma outra Economia acontecer nos trouxe ao encontro das políticas públicas, frente que veio com força nos últimos 20 anos também na América Latina, especialmente com a eleição de governos populares em seus países. A maioria das constituições ou leis destes países não contemplam a Ecosol, e a formação das equipes de governo nem sempre estão convencidas quanto a Economia Social e Solidária.

Quem ocupa esses postos na gestão pública geralmente são pessoas que com muita força e boa vontade abrem caminhos para o fortalecimento da Economia Solidária, encontrando dificuldades para construir políticas de fomento direto aos EES, tais como: fundos de Economia Solidária, programas de compra de equipamentos e compras públicas, construção de infraestrutura e capital de giro. Na maioria das vezes se prioriza políticas de convênios de formação e articulação com entidades e Universidades. Com isso temos muitos processos de formação, e que muitas das vezes ficam aquém da prioridade dos EES que necessitam produzir, comercializar, representar, administrar, articular e ainda participar de momentos de formação. Essa formação geralmente ou quase nunca acontece dentro dos EES e esses precisam se deslocar. Isso não contribui para uma formação dos vários trabalhadores e trabalhadoras, restringindo tais iniciativas a um ou mais associados, além de também não ajudar trazendo a entidade ou universidade para mais perto da realidade de cada EES.

Muitas vezes, os conceitos aprofundados nos momentos de formação não são aplicados na prática do dia a dia, pois o sistema capitalista nos coloca sempre em contradição, inclusive no momento do consumo. E neste sentido está a maior contradição: consumir da Ecosol, do orgânico, do agroecológico. Enfim, não é uma prática fácil.
Política de Estado ou Política de governo?

A Ecosol consolidou um conceito: “precisamos de políticas de Estado para ter continuidade pois as políticas de governo se acabam quando troca de governo”. Quem já não ouviu esta afirmação? Será ela contraditória? Seria tal afirmação verdadeira?

As políticas de governo se apresentam em formato de programas, as políticas de Estado se apresentam em formato de leis. Portanto, cabe aos trabalhadores (as) lutar pela conquista das leis, lutar pela aplicação e lutar pela manutenção. Lutar e lutar sempre, pois a garantia de essas políticas acontecerem é se tivermos governos comprometidos com as causas dos trabalhadores, as causas da Ecosol. E ainda assim, devemos continuar lutando, já que esta é a diferença entre as conquistas e as derrotas. Depois desta caminhada, podemos afirmar que a Ecosol, para se consolidar e avançar, precisa de políticas de Estado e de governos populares. É esse encontro que faz a diferença e promove o desenvolvimento que a Economia Solidária defende.

Uma Justa Trama construindo economia e vida

A caminhada da Ecosol fortaleceu o conceito de organização. Só conseguiremos avançar para esta estratégia de desenvolvimento se nos articularmos em redes ou cadeias. Redes são o encontro desses EES que estão em uma mesma área ou setor econômico atuando: como é uma rede de artesanato, ou de costura ou mesmo de bancos comunitários. Cadeia é quando juntamos todos os elos em processo de produção: podem ser locais, como é a cadeia do mel, ou podem ser nacionais, como é a cadeia do algodão. Contudo, o que queremos com essa estratégia é fortalecer a Ecosol, e este modelo de desenvolvimento que não concentra renda, que produz cuidando do planeta e da vida.

Neste conceito temos a Justa trama: a cadeia do algodão agroecológico que surgiu a partir da experiência de produzir de forma coletiva 60 mil sacolas para o Fórum Social Mundial (FSM) em 2005. A Justa Trama, assim, amadureceu nos espaços da Unisol Brasil e do Fórum Brasileiro de Economia Solidária.

Participam mais de 500 trabalhadores do Nordeste, Norte, Sudeste, Centro-Oeste e Sul do Brasil. Portanto, o algodão é plantado no Ceará e Mato Grosso do Sul, de forma consorciada e ecológica. Sem uso de agrotóxicos no plantio, toda a preservação é feita por meio de defensivos orgânicos, compostagens e com produtos naturais como o Nim. Os plantios agroecológicos consorciados são compostos por multiculturas como o gergelim, milho e o feijão, preservando o meio ambiente e a sustentabilidade dos agricultores. Paralelo a isso, nos últimos três anos o Governo Federal já liberou mais de 1100 agrotóxicos que antes eram proibidos e recusados em vários lugares do mundo.

Assim preservamos a vida e o planeta, já que o algodão convencional é responsável por 25% dos agrotóxicos do mundo aplicados nas plantações. Esse processo de preservação é feito também na fiação e tecelagem em Minas Gerais e na confecção no Rio Grande do Sul, mantendo os cuidados com o produto para que não se contamine com o convencional, além de serem aproveitados todos os retalhos. As sementes da Amazônia de Rondônia, que são nossos adereços e botões, são beneficiadas ecologicamente.

Não há intermediário ou atravessador nesta cadeia solidária e, portanto, todos recebem de forma justa, ou seja, desde o agricultor até a costureira todos ganham acima do que o mercado convencional paga. Assim, todas e todos que estão na cadeia fazem acontecer a distribuição de renda. O preço final de comercialização tem um valor agregado para garantir a sustentabilidade da cadeia, e no final do ano realizamos o balanço, onde parte das sobras são divididas entre os cinco elos, reforçando o desenvolvimento local das cinco regiões.

A Justa Trama é uma rede cooperativa de segundo grau formada por associações e cooperativas da Ecosol que realizam as várias etapas. A Justa Trama também é a marca das roupas, desde camisetas, saias, blusas, calças, bermudas, vestidos e colares, bonecas, bichos e adereços.

Resumindo, os principais valores desta cadeia é adquirir um produto que não tem agrotóxicos, com uma tecnologia limpa em todo o processo, diminuindo o uso dos já citados 25% de agrotóxicos que são jogados no planeta através do algodão convencional. Outro valor primordial é não ter atravessadores, o que permite que, desde o agricultor até a costureira, todas e todos ganhem de 50 a 100% pelo seu trabalho em relação ao valor de mercado. Assim, chegamos ao consumidor final em um valor justo e possível de ser adquirido inclusive pelos que estão no processo produtivo.

Precisamos do compromisso de cada um com a vida, a sua e a de todas e todos, pois só haverá ampliação do plantio do algodão agroecológico se todos optarem por uma forma de vestir ecologicamente correta, e só haverá consciência ecológica se também houver os que preconizam e construam consciência crítica sobre seu consumo. Precisamos intensificar as campanhas de informação ao consumidor, informando-o sobre quais são as fontes de onde vem o que ele vai vestir, assim formando um ciclo que transforma vidas.

São seis os elos dessa cadeia que forma a rede de desenvolvimento local da Justa Trama: Associação Adec, conjunto de quatro municípios do sertão do Ceará que cultivam o algodão; a Associação – AEFAF, dois núcleos de Assentamentos do Mato Grosso do Sul que cultivam o algodão rubi; a Coopertextil, cooperados por onde passa todo o acabamento dos tecidos, de Pará de Minas/MG; a Cooperativa Univens, costureiras que confeccionam, bordam, tingem e serigrafam as peças em série e fica em Porto Alegre/RS; a Cooperativa Açaí, artesãos que beneficiam as sementes e botões que são aplicados nas peças, e produzem bonecas de pano em Porto Velho/RO; e o Coletivo Inovarte, que produz os bichos de pano e jogos pedagógicos, também no Rio Grande do Sul.

Porque não fazemos todas as cadeias curtas e locais? Porque muitas vezes não existem empreendimentos no local para as várias etapas de produção dos produtos que consumimos, e na maioria das vezes nos falta o total conhecimento da tecnologia e mesmo os recursos de investimento para implantar todas as etapas próximas.
Essa caminhada da Ecosol já não deixa dúvida que não são as distâncias que inviabilizam, nem os custos de logística. As maiores dificuldades geralmente se localizam em nossa capacidade de articulação, investimentos e garantia de comercialização. A Justa Trama percorre 5 mil quilômetros do Brasil, e remunera de forma justa todos os processos, e mesmo assim, conforme pesquisa da PUC do Rio Grande do Sul, pratica o menor valor de venda de roupas de marcas orgânicas.

Na Ecosol, a grande maioria dos empreendimentos não têm domínio sobre as várias etapas: realizam a etapa inicial da cadeia como é o caso dos EES que estão na agricultura, e depois o mercado ganha realmente com a transformação e comercialização. Outro exemplo são os empreendimentos urbanos que geralmente estão na ponta final da cadeia e sofrem todo o tipo de dificuldade, já que a agregação de valores se concentrou nas etapas onde estão empreendimentos capitalistas, como é o caso da confecção, da construção civil e da alimentação.

A Ecosol, que hoje tem mais de 20 mil empreendimentos da Economia Solidária em quase todos os setores econômicos, urge construir uma estratégia de aproximação para esta outra economia, – a nova economia -, a que distribui renda, melhora a vida do povo, garante direitos, gera desenvolvimento local e preserva o meio ambiente. A economia gerada pelas pessoas e para as pessoas. A economia que respira vida. Que anseia pelo Bem Viver, pois como diria Paul Singer:

“A Economia Solidária se constrói nos interstícios que as crises inerentes ao capitalismo deixam desocupados. São empresas em crise “tomadas” pelos seus empregados e transformadas em cooperativas; terra deixada improdutiva que via reforma agrária é entregue a trabalhadores, que a cultivam em empreendimentos solidários; é o lixo que infesta as cidades que é reciclado por cooperativas de catadores, etc. O maior desafio é motivar e resgatar a multidão deixada à margem, fazendo-a ver que sua emancipação seja possível, desde que se tornem protagonistas dela.”

* Nelsa Inês Fabian Nespolo é costureira, militante da Economia Solidária, diretora presidente da Cooperativa Univens, da Justa Trama, da Unisol RS, sócia fundadora do banco comunitário Justa Troca e escritora dos livros Tramando Certezas e Esperanças e as Tramas da Esperança.

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