Gente organizada é a salvação da lavoura!

Diante da destruição de direitos e desmonte de políticas públicas, a articulação entre campo e cidade mostra a importância da sociedade civil organizada. Conheça a experiência do Instituto Terra Viva, que anima, estrutura e organiza uma rede de agroecologia no fortalecimento da agricultura familiar e da economia solidária. Por Caco de Paula *

A crise que se acentua com a pandemia de Covid-19 reforça duas certezas. Primeiro, a enorme importância do Estado — independentemente de toda propaganda em contrário. Resolver grandes problemas da vida humana requer Estados confiáveis, com poder econômico e político, capazes de tomar as decisões adequadas, com visão democrática, humanitária e coletiva. A outra grande verdade é a indispensável organização da sociedade civil, desde a sua base, para maior proteção dos direitos das pessoas e do comportamento geral da sociedade. A presença do Estado, com políticas públicas efetivas, e a capacidade de organização, ação e influência da base são condições com efeitos conhecidos na vida cotidiana da população. Especialmente na agricultura familiar de base ecológica, essas condições podem beneficiar a ação de quem enxerga a natureza de forma mais holística e vê a pessoa como um ser dotado do espírito de solidariedade. Esses aspectos estão presentes na inspiradora experiência coletiva do Instituto Terra Viva, que conecta cerca de 80 famílias de produtores agroecológicos da região de Sorocaba (SP) a uma rede de economia solidária construída com parceiros de pontos de venda, distribuidores de cestas, restaurantes e centenas de famílias que, ao se nutrir desses alimentos, nutrem a própria rede.

Cultivo da mudança

O coletivo define sua missão como um trabalho pela prosperidade em seus diversos pilares, de forma digna, responsável e justa, a serviço da agroecologia, da autoconsciência, do bem-estar e da economia solidária. E declara os seus valores:  justiça, transparência, verdade, amor, solidariedade, lealdade e abundância. A semente dessa rede começou a germinar dez anos atrás, em 2011, momento em que a produção agroecológica vivia um vigoroso crescimento no Brasil. Incentivados por políticas públicas implantadas durante os governos Lula e Dilma, agricultores familiares, muitos deles produtores em assentamentos da reforma agrária e em quilombos, tiveram acesso à universidade pública, interagiram com pesquisadores no campo e contaram com programas de aquisição regular de produtos, para alimentação em escolas, hospitais e presídios. Vem dessa época a consolidação de muitos núcleos de agroecologia, como o NAAC Apêtê Caapuã (da Ufscar, campus de Sorocaba), em torno do qual se discutia a importância da diversidade e do conhecimento local – não apenas para o trabalho na terra, mas também para o cultivo da mudança social. Fermentavam-se as ideias e ampliava-se o movimento de transição, da agricultura familiar dependente do pacote tecnológico dito “convencional”, para a produção agroecológica. A aproximação entre pesquisadores e agricultores buscava a construção conjunta de conhecimento, como na proposta do educador Paulo Freire, em que ambos são capazes de educar e de se educarem. Foi nesse contexto que nasceu o Instituto Terra Viva, com a missão de contribuir para a agroecologia da região. 

Água e conhecimento

O primeiro projeto realizado pelo instituto foi sua participação na edição inicial do programa Plantando Águas, com patrocínio da Petrobras e coordenado pela organização Iniciativa Verde, que atendeu mais de 160 famílias no estado de São Paulo. O Terra Viva foi o executor do projeto na região de Sorocaba, atuando com mais de 70 famílias agricultoras, assentados e quilombolas. O trabalho incluiu a implementação de áreas de agroflorestas nos sítios, restauração de áreas de proteção permanente, instalação de equipamentos básicos de manejo e saneamento ecológico para tratar os resíduos das residências, além de assessoria técnica. O projeto sensibilizou dezenas de famílias, que se engajaram na regeneração do solo e do planeta produzindo alimentos orgânicos. Na construção conjunta de conhecimento de que falamos há pouco, agricultoras e agricultores definiram as prioridades para os sistemas agroflorestais (SAFs) em seus lotes. O trabalho é descrito no livro Sistemas Agroflorestais – experiências e reflexões, editado pela Embrapa. Cerca de 30 dessas famílias ainda fazem parte da mesma rede do Terra Viva. 

É muito simbólico que a origem do instituto e da ampliação da consciência ecológica na produção de alimentos esteja justamente numa ação de cuidado e proteção de nascentes e cursos de água. Assim como é muito prática a percepção de que, além de apoio no campo, os agricultores precisam de parceiros para fazer com que os produtos orgânicos cheguem à mesa dos consumidores. “Desde a fundação do Terra Viva era claro para nós que um dos principais gargalos das famílias agricultoras era — e continua sendo — a comercialização dos produtos, seja por falta de mão de obra, de tempo ou de logística, e assim por diante”, recorda-se a gestora ambiental Naíshi Brandão, que integra o coletivo desde seu início. “Ao finalizarmos os projetos dos quais participamos implantando SAFs, fazíamos os mutirões e nos perguntávamos sempre como e onde os agricultores poderiam escoar a produção.” 

O vigor das parcerias

O estatuto da organização já previa prestar assessoria para viabilizar a produção agroecológica por meio da comercialização. “Isso se deu  a partir da parceria com alguns atores agroecológicos de Sorocaba, que estavam reunidos no Grupo de Articulação Regional da Feira Agroecológica de Sorocaba (Garfos) e que passaram a compor essa frente de atuação na viabilização comercial da produção, que foi estimulada e em parte estruturada pelo aporte do Plantando Águas”, explica o engenheiro-agrônomo Claudio Nadaleto, que integra a equipe de campo do Terra Viva, prestando serviços no âmbito da assessoria técnica e do planejamento de produção. Da articulação com o Garfos, lá em 2013, promovida pelo biólogo Pedro Kawamura Gonçalves, então coordenador do Terra Viva, foi implementada, em parceria com a prefeitura de Sorocaba, a primeira feira de produtos orgânicos do município. As parceiras continuaram e, em 2016, uma colaboração com o (hoje extinto) coletivo Amaranto Orgânicos abriu caminho para viabilizar o Armazém Terra Viva. 

Em 2017 o armazém começou a comercialização, ainda no formato de projeto, com uma estrutura muito enxuta, tocada por Naíshi com o economista Caio Rennó José e Ari Pinheiro. Esses dois últimos, vindos do Amaranto. Durante algum tempo, toda a estrutura do armazém se resumia ao galpão emprestado pela família de Caio, a uma pequena camionete e a um único parceiro na cidade de São Paulo, o Instituto Chão, na Vila Madalena. O vigor do Terra Viva estava mesmo na rede que se fortaleceu a cada dia com as famílias de agricultores, muitas delas parceiras desde os tempos em que juntos semeavam águas. Em 2018 o coletivo ganharia novos membros e, em 2020, seria reforçado por uma entrada mais robusta de integrantes. Hoje o coletivo tem 20 participantes, que trabalham para fazer chegar a 30 parceiros em pontos de venda na capital paulista cerca de 40 toneladas de alimentos produzidos mensalmente por 84 famílias de agricultores da região de Sorocaba.

Além da comercialização, boa parte da parceria do Terra Viva com as famílias de agricultores se dá no atendimento às demandas técnicas trazidas por elas. O pano de fundo é a ausência ou inoperância das agências oficiais de assessoria técnica e extensão rural, ou “ater”, como se diz no meio agrícola. “Para além dessa ausência do Estado no campo, há principalmente a construção do conhecimento agroecológico, que é a base de nosso trabalho”, enfatiza Claudio Nadaleto. Essa assessoria se dá de diversas formas. Inclui desde a facilitação do processo de certificação orgânica por auditoria, por sistemas participativos de garantia (SPG) ou mesmo por OCS (organização de controle social). Ela se dá também tanto pela assessoria à produção em si, por meio do acompanhamento técnico agroecológico presencial, quanto remotamente, por telefone ou  WhatsApp. Prática comum antes da pandemia, as oficinas e intercâmbios para troca de experiências estão temporariamente suspensos, à espera de tempos mais propícios a encontros presenciais. 

A política do cuidado

O filósofo colombiano Bernardo Toro, que inspirou algumas das linhas do início deste texto, é quem nos lembra que “quanto maior a organização da base, maior a proteção dos direitos das pessoas e melhor o comportamento da sociedade”. Isso se aplica às escolhas na alimentação, que também são políticas. Toro gosta de citar uma frase que ganha especial significado nestes tempos de desproteção social, frase que ele atribui ao seu amigo Leonardo Boff: “Ou aprendemos a cuidar, ou todos pereceremos”. No fim, o que a rede de economia solidária formada pelo Terra Viva, pelas famílias de agricultores e pelos parceiros está fazendo é adotar um pouco dessa filosofia do cuidado, um ato de imenso significado político. “A agroecologia é um conjunto de valores e hábitos que fundem uma nova cultura, e o fruto disso são produtos saudáveis e a consciência de que não basta só tratar a saúde do ser humano desgarrado da saúde da terra, porque nós somos terra”, disse Boff em recente entrevista publicada pelo Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais (Sasop). “O homem vem de húmus, terra boa, terra fértil, e há uma interação enorme entre o ser humano e a terra, a água, o solo, o que comemos e respiramos.”

No contexto da pandemia

Como ocorreu nos demais ramos da atividade humana, o cotidiano do Terra Viva foi afetado pela pandemia. Além de incluírem os protocolos de segurança sanitária, os integrantes do coletivo tiveram de se adaptar à diversificação e reformulação das operações. Pouco antes da pandemia havia sido criada a Mãnatu Orgânica, uma estrutura voltada à venda direta aos consumidores de Sorocaba e região. Como as vendas em geral tiveram um crescimento significativo nos primeiros meses pandêmicos, a Mãnatu e o armazém expandiram sua atuação e foi necessário alugar um galpão maior para organizar a distribuição. O aumento da demanda, em si, não significa que o instituto não tenha desafios a enfrentar. E não são poucos. Há muito a fazer quando se pensa na sua missão de fortalecer a agricultura familiar de base agroecológica, com ações que valorizem os saberes desses agricultores e agricultoras, materializados pela produção e pelos cuidados com a natureza e a sociedade em geral ao produzirem saúde na forma de alimentos. No nível macro, há o desgoverno e suas políticas genocidas. Internamente, os maiores desafios são remunerar melhor e garantir mais benefícios aos membros do coletivo, diversificar a atuação e aumentar a receita gerada. 

Plataforma é a reconstrução

Pesquisa recente da Articulação Nacional de Agroecologia mostra que o principal gargalo apontado pelos produtores continua sendo o apoio para os circuitos curtos de comercialização, que é justamente o trabalho que o Terra Viva faz em sua região. Um olhar sistêmico para essa atividade permite vislumbrar pontos que obrigatoriamente devem ser tratados em qualquer discussão política séria, dado seu potencial de impacto em problemas que se agravam a cada dia, como o aprofundamento da desigualdade social e o avanço da fome entre os brasileiros. Muito se pode discutir a esse respeito, mas não resta dúvida de que recuperar o que vem sendo desmontado e destruído no apoio à agricultura familiar desde o golpe de 2016 já seria, em si, uma plataforma ambiciosa e urgente.

“Diferentemente do cenário de hoje, no qual a caneta tem sido usada para tirar direitos de quem produz e de quem trabalha, um novo governo deverá reverter e aprofundar a construção de políticas de combate à fome e à insegurança alimentar, ao mesmo tempo que valoriza e cria condições para a agricultura familiar realizar suas produções”, sintetiza o economista Caio Rennó José, membro do coletivo. Ele cita políticas existentes que foram abandonadas ou desidratadas desde o golpe. Do lado das compras institucionais ele citou dois instrumentos principais: o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos, criado em 2003 no âmbito do Programa Fome Zero), uma boa política que deve ser retomada; e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que oferece alimentação escolar e ações de educação alimentar e nutricional a estudantes de todas as etapas da educação básica pública. Este deve ser aperfeiçoado, com maior valorização dos municípios que cumpram a condição de usar pelo menos 30% dos recursos na compra de gêneros alimentícios diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e as comunidades quilombolas. 

Agroecologia como resposta

“Para estimular a produção sustentável, agroecológica, justa e que gera renda e trabalho no campesinato, o Estado deve criar programas de crédito direcionados e com as condições próprias para atender efetivamente os agricultores familiares, os assentados da reforma agrária, comunidades quilombolas, caiçaras, indígenas e demais povos”, enumera Caio. Ele lembra que, além do crédito, a assessoria técnica subsidiada pelo Estado seria um grande fator para contribuir para o aperfeiçoamento das produções, aliando conhecimentos empíricos, tradicionais e científicos. 

Ele acrescenta ainda alguns pontos bem práticos: isentar de impostos o maquinário agrícola para otimizar o trabalho no campo; facilitar as condições de compra de caminhões para a agricultura familiar; incentivar a construção ou ocupação de imóveis públicos ou privados estrategicamente localizados para facilitar a locomoção dos alimentos produzidos regionalmente, concedendo contratos de comodato para associações e cooperativas locais. Como se vê, não há mistério algum sobre quais medidas reivindicar para fortalecer a agricultura familiar de base ecológica. E como já foram experimentadas em maior ou menor escala, não há dúvida sobre as suas consequências. 

“A agroecologia traz muitas respostas a problemas contemporâneos, como a falta de tolerância, de empatia, de noção de justiça, de respeito à diversidade”, diz Caio. “E isso tudo se envolve com o lugar que a gente pisa, com o que a gente come, com a forma como a gente olha para o outro”, finaliza.

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Agroflorestas são economicamente viáveis?

Para escapar do colapso ecológico em curso, é preciso produzir de outras formas. A agrofloresta, como diz João Canuto, é uma oportunidade realista para a continuidade da vida no planeta. Apesar disso, questiona-se muito tais sistemas alternativas de produção de comida, no sentido de não terem o potencial produtivo dos atuais sistemas convencionais do veneno. Se essa presunção é correta você vê na sequência. O ponto é que os fatores necessários para a boa vida na terra dificilmente são chamados para fazer parte dos cálculos. E, nesse sentido, muito além de comida, as agroflorestas podem ser um prato cheio para combater a desigualdade, regenerar nossas fontes de água exauridas, e o próprio planeta

Por João Carlos Canuto *

Dentre as diversas polêmicas suscitadas pela disputa de espaço entre modelo convencional e agroecológico, uma se destaca: a da viabilidade econômica dos sistemas de produção. Temos atualmente muitas informações sobre a economia dos cultivos convencionais, mas pouco se investigou seriamente sobre a economia dos sistemas diversificados ou complexos. Assim, utilizando métodos convencionais, muitas vezes nos apanhamos fazendo comparações entre agriculturas fundadas em paradigmas díspares. Como já disse Einstein, loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual.

Por exemplo, pode-se entender viabilidade como produzir “x” sacas de grãos por hectare, mas estaremos deixando de considerar inúmeros outros elementos de suma importância, que vão além do parâmetro Kg/ha. Portanto, se quisermos entender a viabilidade econômica de modo mais completo, não podemos deixar de considerar aspectos positivos dos sistemas agroecológicos como a restauração da biodiversidade, a economia de recursos, a autonomia econômica dos agricultores, a segurança alimentar, o controle biológico natural, o enriquecimento do solo, a recuperação da água, a regulação do clima, a oferta de alimentos isentos de agrotóxicos, a inclusão social, entre outras tantos. VER LIVE Vantagens safs.

Mesmo assim, se pudermos separar a questão estrita da viabilidade econômico-financeira, sobram argumentos indicando claramente a superioridade dos sistemas agroecológicos e agroflorestais.

Para melhor entender a questão da viabilidade econômica dos sistemas biodiversos, propõe-se discutir alguns conceitos sobre agrofloresta e quais suas diferenças em relação à agricultura convencional, quais os principais fundamentos propulsores da produtividade das agroflorestas que incidem sobre sua viabilidade econômica, transcendendo o debate focado nos aspectos financeiros para a viabilidade social da agrofloresta.

A viabilidade humana da agrofloresta inclui o enfoque financeiro, mas busca constituir-se como alternativa de sustentabilidade ampliada para a existência digna do homem no planeta.

O que é agrofloresta e quais suas diferenças em relação ao monocultivo

Atualmente a sociedade vai tomando consciência que o modelo econômico em andamento está falido e a agricultura industrial é uma das principais protagonistas nesse processo, por provocar os mais diversos impactos negativos sobre os recursos da natureza, conforme é possível verificar no Quadro 1. 

Em contraponto, também estão sendo construídas com mais força alternativas ao modelo, fundamentadas no movimento agroecológico e agroflorestal.

Agroflorestas são sistemas biodiversos que unem de modo harmonioso cultivos e floresta, criando um equilíbrio entre objetivos econômicos e ecológicos. Em agrofloresta não há modelo único, mas sim variações locais da aplicação dos mesmos princípios. As agroflorestas podem expressar-se na forma de quintais e jardins agroflorestais, sistemas agrossilvopastoris, ter foco em frutas, hortaliças, cultivos anuais, madeiras, entre tantos outros arranjos e escalas produtivas.

A seguir, no Quadro 2, apresentamos abaixo algumas das principais diferenças entre a proposta agroflorestal e a convencional ou simplificada:

A superioridade ecológica dos sistemas complexos é notória, semelhante à dos sistemas naturais, que se perenizam por conta da reciclagem natural e abundância de biodiversidade, características que conferem estabilidade e resiliência semelhante a esses arranjos produtivos.

Viabilidade econômica da agrofloresta

Ao discutirmos a viabilidade econômica dos modelos industrial e ecológico de fazer agricultura, podemos escolher um enfoque estritamente financeiro ou uma visão social e humana dos diferentes sistemas. Vamos começar pela abordagem econômico-financeira e, posteriormente, ampliaremos esta forma de avaliação.

Mesmo considerando os parâmetros clássicos de avaliação financeira, as agroflorestas demonstram sua grande potencialidade de renda, devido ao que vamos explanar mais adiante, qual seja, as qualidades ecológicas emergentes propulsoras da produtividade.

Para tanto utilizaremos uma ferramenta relativamente simples, o índice de equivalência de área (IEA). O IEA é um índice utilizado para avaliar a eficiência dos sistemas biodiversos, em comparação aos de monocultivo. Os sistemas são considerados eficientes quando o IEA é superior a 1,00.

O IEA de uma agrofloresta é a relação entre a produtividade por área (kg/ha) do conjunto de seus cultivos com a produtividade (kg/ha) destas mesmas espécies em sistema de monocultivo. 

A tendência indicada pelas pesquisas é que os sistemas diversificados produzem mais que os de monocultivo. A razão disso é a geração de processos ecossistêmicos na forma de qualidades emergentes positivas, como melhor aproveitamento espacial do terreno, potencializado pela estratificação aérea, que permite uma captação de radiação solar amplificada, pela melhor exploração de camadas mais profundas de solo e seu consequente bombeamento de nutrientes de camadas  profundas, com aproveitamento da biomassa por meio de podas, além de todos os manejos ecológicos que trazem equilíbrio e menor ou nula aplicação de insumos externos.

Embora o exemplo acima seja fictício, a literatura científica, mesmo que ainda incipiente, já mostra resultados sempre maiores que 1,0 para sistemas diversificados, devidos às já comentadas qualidades ecológicas emergentes inerentes a estes sistemas.

Portanto, mesmo sob a ótica estritamente financeira, os sistemas agroflorestais mostram não apenas sua viabilidade, mas sua clara superioridade econômica em comparação à agricultura de monocultivo.

Viabilidade humana da agrofloresta

Um dos conceitos centrais nessa argumentação é o de propriedades ou qualidades emergentes. São qualidades novas criadas pela sinergia entre componentes dos sistemas biodiversos, em que “o todo é superior à soma das partes”. Na verdade, as qualidades emergentes são “o segredo” das altas produtividades físicas e ecológicas das agroflorestas.

Apresentamos a seguir algumas dessas chaves da produtividade das agroflorestas, exemplificadas com imagens no Quadro 3: 

Biodiversidade funcional é a propriedade emergente que cria equilíbrio e revitalização nos agroecossistemas: alelopatias, mutualismos, simbioses entre plantas e micorrizas, controle biológico por inimigos naturais, mineralização da matéria orgânica por microrganismos… E muito mais. Exemplos de benefícios: economia de insumos de proteção de plantas, redução de adubação (deposição de matéria orgânica, fixação de nitrogênio atmosférico) e ampliação de oferta de produtos saudáveis.

Multiestratificação aérea: captação ampliada da radiação solar, em comparação aos monocultivos, por conta da exposição das plantas em diversos “andares”; arranjo espacial mais compacto.

Exemplos de benefícios: aumento da fotossíntese do conjunto das espécies, aumento do número de plantas por área e consequente potencial de maior produtividade física (kg/ha).

Multiestratificação subterrânea: extração de elementos de horizontes profundos e disponibilização na superfície do solo como deposição de serrapilheira ou pelo manejo de podas. Exemplos de benefícios: economia de adubos, maior produtividade física (kg/ha), menor uso de água.

Manejos agroecológicos: os manejos agroecológicos são as estratégias mais usuais e de maior impacto na produtividade, tendo diversos efeitos ecológicos com reflexos econômicos, já bastante documentados, seja na fertilidade química, na vida do solo e na renovação da qualidade dos recursos como a água. 

Ainda na questão dos manejos agroecológicos, esses tem reflexos em diversos níveis, tais como:

Na renovação da fertilidade: uso de composto, esterco, resíduos da propriedade; cultivo de plantas de adubação verde e de produção de biomassa. Exemplos de benefícios: economia na aquisição de fertilizantes, menor custo de transporte, elementos não tóxicos em contato com o ambiente, conservação da qualidade dos recursos internos, entre outros. 

Na melhoria física e biológica do solo: melhor estruturação e qualidade física, facilidade de penetração das raízes, maior absorção de água, abundância da fauna edáfica, aceleração da mineralização e absorção de nutrientes. Exemplos de benefícios: manutenção do potencial produtivo do solo a baixo custo, menor despesa em manejos e insumos, menos despesas com práticas de conservação do solo, maior crescimento das plantas, mais produtividade física.

Na disponibilidade e qualidade da água: captação, conservação e “produção” de água, à semelhança de uma floresta natural. Exemplos de benefícios: menor custo de irrigação, melhor qualidade da água, recuperação de nascentes e maior potência de oferta de água potável.

Considerações finais

Sistemas biodiversos, como as agroflorestas são alternativas viáveis ao monocultivo. Considerando tão somente a abordagem financeira, mostram sua superioridade produtiva em comparação aos monocultivos da agricultura industrial. No entanto, seu papel não é apenas o de gerar renda aos agricultores, mas, mais do que isso, propõem uma nova forma de relacionamento com a natureza e com a vida humana. São alternativas de inclusão social, tanto dos agricultores como dos cidadãos da cidade. Oferecem produtos isentos de agrotóxicos. Conservam os recursos solo, água e biodiversidade. Mitigam as mudanças climáticas. São, assim, opções realistas para a continuidade da vida no planeta.

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Agroecologia num contexto solidário e criativo

Os desafios pelos quais o mundo enfrenta precisam de soluções colaborativas, e entre elas a agroecologia assume destaque; conheça mais sobre esse conceito, a partir da visão de diversos autores, e entenda o motivo de a agroecologia ser vista, por muitos, como uma das alternativas mais viáveis para combatermos os males da globalização, que escasseia os recursos naturais e idolatra o consumismo desenfreado

Por Afonso Peche *

No mundo atual, vivemos duas situações opostas: de um lado uma globalização que impõe aos povos a economia do lucro rápido e do tecnicismo de consumo, gerando riqueza para poucos; e de outro lado, a realidade dos povos tradicionais, miseráveis e discriminados que juntos geram pobreza de muitos.

É evidente que a globalização explora a natureza de modo extrativista, gerando emprego e desemprego, renda e necessidades, acarreta em concentração de riqueza, segregação e interrupção no processo civilizatório tradicional – tudo isto, às custas da exaustão de recursos naturais e do consumo exagerado. É também evidente que, a cada ano, os movimentos populares ganham mais força, mais identidade e que a parte mais desassistida da população na busca da sobrevivência promove também a degradação ambiental e humana. Todos buscando alternativas para um desenvolvimento social com melhorias para a vida.

Nas questões relacionadas com a degradação do planeta, parece que há um consenso: é preciso mudar nossas atitudes e ações com a natureza. O modelo de convivência do homem com a natureza não é bom. Precisamos com urgência sair do extrativismo e construir bases sustentáveis com respeito a todas formas de vidas. Já nas questões relacionadas com o social, também parece ter outro consenso, o de que não estamos bem e a sociedade está mais segregadora, violenta e desumana. O modelo social das comunidades precisa ser trabalhado em busca do desenvolvimento local, bem estar e solidariedade.

As confluências e desafios de práticas alternativas para um desenvolvimento mais humano e racional levam à construção de uma plataforma de necessidades e saberes que se completam quando são tratados como bases de organização comunitária. Neste sentido, há uma imensa possibilidade de adoção das diretrizes da agroecologia, da economia solidária e da economia criativa. No caso de reestruturação nos rumos de cidades, bairros, localidades e outras formas comunitárias de se viver, a agroecologia solidária e criativa passa a existir como uma manifestação alternativa, estabelecendo objetivos e propósitos de promover um desenvolvimento mais inclusivo, com mais dignidade humana e mais sustentabilidade.

Há vertentes na academia que defendem que a agroecologia se apresenta como uma matriz disciplinar integradora, totalizante, holística, capaz de apreender e aplicar conhecimentos gerados em diferentes disciplinas científicas. Assim, ela vem se constituindo na ciência basilar de um novo paradigma de desenvolvimento rural, que tem sido construído ao longo das últimas décadas.

O propósito deste artigo é oferecer uma reflexão direcionada para os instrumentos de mudança que representam a junção de conceitos na tentativa de definir o que venha a ser agroecologia solidária e criativa.

Fundamentos sobre agroecologia

A agroecologia pode ser definida como uma ciência que estuda a agricultura local com base no ecossistema de referência. O produto da agroecologia é um agroecossistema, ou seja, um sistema de produção agrícola que leva em consideração as relações ecológicas locais na busca de uma ocupação e uso das terras de forma a construir ambientes com perenidade produtiva e ecologicamente equilibrados.

Ela tem como fundamento básico o desenvolvimento de sistemas agrários a partir da experiência em executar e experimentar práticas agrícolas. A agroecologia enfatiza a inovação a partir da capacidade da comunidade em experimentar, transformar e desenvolver o conhecimento local entre seus atores.

Segundo o professor Miguel Altieri, a agroecologia oferece orientações básicas para o desenvolvimento de agroecossistemas que se beneficiam dos efeitos da integração proporcionados pela biodiversidade de plantas e animais, o que favorece complexas interações e sinergismos assim como: regulação biótica de organismos prejudiciais, reciclagem de nutrientes e a produção e acumulação de biomassa, permitindo que o agroecossistema estabilize seu próprio funcionamento.

Para Altieri, o objetivo final do modelo agroecológico é melhorar a sustentabilidade econômica e ecológica dos agroecossistemas, ao propor um sistema de manejo que tenha como base os recursos locais e uma estrutura operacional adequada às condições ambientais e socioeconômicas existentes. Ao se adotar uma estratégia agroecológica, os componentes de manejo são geridos com o objetivo de garantir a conservação e aprimorar os recursos locais (germoplasma, solo, fauna benéfica, diversidade vegetal, etc.) enfatizando o desenvolvimento de metodologias que valorizem a participação dos agricultores, o conhecimento tradicional e a adaptação da atividade agrícola às necessidades locais e às condições socioeconômicas e biofísicas.

Para o autor de “Agroecologia Militante”, Ivani Guterres, a agroecologia não é uma disciplina, e sim um abordagem transdisciplinar que enfoca a atividade agrária desde uma perspectiva ecológica. É um enfoque teórico e metodológico que, utilizando várias disciplinas científicas, pretende estudar a atividade agrária vinculando essencialmente o que existe entre o solo, a planta, o animal e o ser humano. Segundo ele, a dinâmica das explorações agrárias não se explica só por condicionamentos agronômicos da parcela e sim por condicionamentos ambientais, sociais e econômicos. As variáveis sociais ocupam um papel muito relevante, dado que as relações estabelecidas entre seres humanos e as instituições que as regulam constituem a peça-chave dos sistemas agrários, que dependem do homem para sua manutenção.

Michael J. Dover e Lee M. Talbot afirmavam que a regra principal da agroecologia é que não há substituto para o conhecimento detalhado de um determinado terreno que está sendo planejado ou manejado. Para esses autores, princípios, teorias e, inclusive, aparentes “leis” devem submeter-se à realidade. O que os ecólogos oferecem à agricultura não é um conjunto de respostas fáceis, mas um conjunto de perguntas difíceis.

Por fim, Stephen Gliessman considera que a agricultura do futuro requer uma “nova” abordagem, tanto na forma de praticar como em questões do desenvolvimento agrícola. Para ele, o futuro passa por conservar os recursos da agricultura tradicional local, enquanto, ao mesmo tempo se exploram conhecimento e métodos ecológicos modernos.

Esta abordagem é configurada na ciência da agroecologia, que é definida como a aplicação de conceitos e princípios ecológicos no desenho e manejo de agroecossistemas sustentáveis. Ainda segundo o autor, a agroecologia proporciona o conhecimento e a metodologia necessários para desenvolver uma agricultura que é ambientalmente consistente, altamente produtiva e economicamente viável.

A agroecologia abre a porta para o desenvolvimento de novos paradigmas da agricultura, em parte porque corta pela raiz a distinção entre a produção de conhecimento e a sua aplicação; valoriza o conhecimento local e empírico dos agricultores, a socialização desse conhecimento e a sua aplicação ao objetivo comum da sustentabilidade.

Buscando o desenvolvimento solidário e criativo

A agroecologia solidária e criativa é uma tentativa de estabelecer uma construção de convergências e identidades entre pólos de articulação social e política. Deve ser entendida como resultante de um sinergismo voltado para uma ampla rede de interesses, solidariedade e criatividade. Num campo dinâmico de relações pode ser considerado um grande entendimento de: “redes de redes”, “espaços de articulação e diálogos”, “articulações de movimentos sociais e organizações”. Esse grande entendimento pode ser o caminho de mobilização de um amplo grupo de entidades diversificadas e autônomas, cuja solidariedade e criatividade resultam em um permanente trabalho de construção e reconstrução.

A valorização de formas participativas para a promoção do desenvolvimento local é a proposta da agroecologia como um caminho que assegura atender as reais necessidades das comunidades rurais ou urbanas. O primeiro passo para criar um movimento agroecológico solidário e criativo é checar e alinhar, entre líderes e membros da comunidade, conceitos e significados práticos para que posteriormente se possa definir ações operacionais de um redesenho que agregue instrumentos para possibilitar a ampliação de oportunidades para valorização da cultura local, geração de renda, empregos, acesso a serviços sociais e ao equilíbrio ecológico territorial.

A adoção da agroecologia solidária e criativa propicia múltiplas incorporações na sociedade local, e aponta caminhos para aberturas de alternativas e escolhas baseadas na cultura local. O desenvolvimento ocorre a partir da experiência comunitária e das pessoas em conviver com a natureza e interagir com demandas para conhecimento e integração de saberes na construção de ambientes. Em agroecologia não existem receitas prontas, existe sim um resgate do conhecimento endógeno para construção de novas formas de aplicação da tecnologia.

Mais do que simplesmente tratar sobre o manejo ecologicamente responsável dos recursos naturais, a agroecologia constitui-se em um campo do conhecimento científico que, partindo de um enfoque holístico, pretende contribuir para que as sociedades redirecionem o desenvolvimento socioambiental. Assim, a agroecologia integra e articula conhecimentos de diferentes ciências, permitindo a compreensão e análise do atual modelo de desenvolvimento rural e o desenho de novas estratégias agrícolas sustentáveis.

Um ponto fundamental é o desenvolvimento de práticas agroecológicas para a produção de alimentos livres de contaminantes químicos e biológicos, que além de atender de maneira integrada à extinção da dependência de insumos externos, cria oportunidade para o desenvolvimento de ações da economia solidária focadas na soberania e segurança alimentar.

Além das atividades relacionadas com produção de alimentos, lembramos que a agroecologia preconiza ações comunitárias para o saneamento do meio, como por exemplo, práticas para controle da poluição ambiental, das zoonoses, das condições de trabalho e da saúde, abrindo aí outras formas de inserir e desenvolver a economia solidária.

Os autores Rodrigo Machado Moreira e Maristela Simões do Carmo sugerem sete princípios básicos para elaboração de um plano de desenvolvimento rural em bases agroecológicas. São eles:

1 – Integralidade (além da produção agrícola e o manejo dos recursos naturais, deve-se levar em conta o aproveitamento dos distintos elementos existentes na região estabelecendo atividades econômicas e socioculturais, abarcando a maior parte dos setores para permitir o acesso aos meios de vida pela população);

2 – Harmonia e equilíbrio (os esquemas de desenvolvimento devem contrabalançar crescimento econômico e qualidade do meio ambiente, buscando sempre o equilíbrio ecológico);

3 – Autonomia de gestão e controle (os habitantes da localidade é que devem gerar, gerir e controlar os elementos-chave do processo de desenvolvimento);

4 – Minimização das externalidades negativas nas atividades produtivas (estabelecimento de redes locais de produção, troca de insumos e consumo de produtos ecológicos, como forma de enfrentar o poder exercido pelo mercado convencional de insumos de origem industrial e sintética);

5 – Manutenção e fortalecimento dos circuitos curtos de comercialização (fortalecimento ao máximo dos mercados locais possibilita aos agricultores aprenderem e terem controle sobre os processos de comercialização, quando se deve então passar aos mercados micro e macrorregionais e tentar conquistar mercados externos vinculados às redes globais de mercado solidário);

6 – Utilização do conhecimento local de manejo dos recursos naturais (o conhecimento local, em interação horizontal com o conhecimento científico, que pode aportar soluções realmente sustentáveis para a região considerada);

7 – Pluriatividade, seletividade e complementaridade de rendas (a pluriatividade difere da simples introdução de atividades não agrícolas no meio rural, tão característica dos programas de desenvolvimento rural integrado; a seletividade está relacionado à escolha coletiva e, portanto, participativa, de que tipo de atividade produtiva complementar se introduzirá na localidade).

Não se trata de substituir, portanto, a atividade agrícola por outras como a atividade turística desordenada e controlada por grupos externos à comunidade e que se apropriam do potencial endógeno da localidade. É importante lembrar que pluriatividade oportuniza ações de economia criativa e fortalece as rendas complementares à renda agrícola. As ações da economia criativa ocorrem de forma individual ou por meio de estruturas associativas, gera laços de solidariedade tomando especial cuidado com a valorização da cultura local.

Outro importante autor, Eduardo Sevilla Guzmán, ainda levanta outras características compartilhadas pelas experiências alternativas de agricultura agroecológica que emergem na América Latina, como a endogeneização produtiva através de processos de transição para agricultura agroecológica; a diversificação da produção e dos mercados para eliminar os riscos sociais e ecológicos; a geração de redes locais de trocas produtivas em termos de sementes, conhecimentos de gestão e técnicas desenvolvidas nas propriedades; a geração de redes de intercâmbio regional para a criação de novos circuitos que entram “formas produtivas” descritos acima e a geração de redes globais para trocar as “experiências socioeconômicas” relativas à resistência ao modelo de produção gerado pelo paradigma da modernização.

Fica clara, portanto, a riqueza do universo no qual estão inseridos os pequenos agricultores e povos tradicionais e as infinitas oportunidades de convergências adaptativas das ações propostas pela agroecologia, e pelas economias solidária e criativa.

* Afonso Peche, pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC

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